(Fotos: Nah Jereissati/ADUFC-S.Sind)
Na manhã da última quinta-feira, o auditório Izaíra Silvino, localizado na sede da ADUFC em Fortaleza, recebeu o debate “Mudanças no trabalho, carreira e saúde docente” com a participação dos/as docentes Cláudio Mendonça (Pres. ANDES-SN/UFMA), Irenísia Oliveira (Conselheira ADUFC/UFC) e Virgínia Assunção (Diretora ANDES-SN/UECE), A mediação do debate foi feita pela Prof.º Tânia Batista (UFC), integrante do Conselho de Representantes da ADUFC.
O Prof. Cláudio Mendonça deu início ao debate trazendo perspectivas sobre o mundo do trabalho a partir de versos das músicas “Um Homem Também Chora/Guerreiro Menino”, de Gonzaguinha; “Fábrica”, do Legião Urbana; e “Ter ou Não Ter”, de Belchior. Todas as músicas abordam perspectivas sobre as relações de trabalho no capitalismo. O professor ressaltou, a partir do trabalho do professor João Paulo Netto, que o trabalho na sociedade de classes acontece a partir de uma alienação dúplice: tanto do produto do trabalho, quanto do trabalho em si.
O docente confrontou também a ideia de “liberdade absoluta” que vem sendo apresentada para a sociedade. “Não existe liberdade absoluta na sociedade de classes porque no limite sempre há mecanismos onde a liberdade será cerceada”, apontou. E trouxe para a audiência a reflexão de como os nossos corpos são moldados desde o nascimento para o mundo do trabalho com o intuito de que quando se chegue na atividade laboral, não haja estranhamento ou questionamento.
A plateia da atividade estava repleta de estudantes do curso de Ciências Contábeis (UFC) que prontamente identificaram os exemplos da série “Todo Mundo Odeia o Cris” que foram compartilhados pelo Prof. Cláudio a partir da condição de vida do personagem Julius, pai do Cris, que tem vários empregos diferentes e traz uma problemática que se inicia nos EUA sobre o trabalho sem regulação. “Isso é tragédia a médio e longo prazo”, afirmou.
O professor trouxe também a centralidade do papel da comunicação corporativa ao abordar de formas assimétricas políticas econômicas que envolvem garantia de direitos para a população e políticas econômicas que beneficiam diretamente a elite do país.
“Como a grande mídia se comporta? Ela se comporta da seguinte forma: Quando é uma política econômica para garantir algum efeito para o conjunto da sociedade em geral, principalmente os mais precarizados, a mídia vai afirmar que isso é um absurdo, porque isso pode impactar nesse outro mito criado, que é o debate sobre endividamento do Estado, sobre meta de inflação. Essa coisa que surgiu nos anos 90 do superávit primário, esse tripé da macroeconomia neoliberal mundial que todo mundo acorda acreditando que isso sempre desistiu. E aqueles que questionam isso são taxados como malucos e absurdos”, afirmou.









Saúde Docente
“O debate da saúde docente, ele tem a ver com o debate da saúde dos trabalhadores e trabalhadoras. Nós vivemos uma sociedade cada vez mais adoecida. As pessoas acham mais que normal viver cada vez mais em pé a base de remédios”, pontuou o Prof. Cláudio sobre o tema da saúde da classe trabalhadora.
E refletiu sobre a lógica neoliberal de individualização da responsabilidade que opera a partir da lógica de que o problema de saúde é um problema do sujeito quando na ampla maioria dos casos são problemas causados por um mundo cada vez mais brutal com a classe trabalhadora.
“A romantização da doença é uma outra chaga da sociedade contemporânea. Porque acha que isso é normal, o trabalhador ter que acordar com um coquetel de remédios, passar o dia e a noite ter que tomar um coquetel de remédios. Aí quando tem surto, as pessoas não sabem de onde surgiu. E novamente entra nessa lógica neoliberal de individualização da responsabilidade. Como se o problema fosse do sujeito. (…) Quando não consegue refletir que nós estamos num mundo cada vez mais brutal. É esse mundo, gente”, afirmou.
O docente ressaltou que os processos de adoecimento contemporâneos têm afetado cada vez mais a vida dos/as docentes uma vez que as condições de trabalho têm sido cada vez mais precarizadas também na Educação.
“Com essa lorota neoliberal de enxugar e tirar a responsabilidade do Estado na manutenção, na qualidade das universidades, a gente vê departamentos onde você tinha quase quatro técnicos administrativos, por exemplo, que desenvolviam uma tarefa que hoje nós temos apenas um desenvolvendo”, compartilhou.
O docente apontou também desafios na carreira docente como a formação continuada e a necessidade urgente de reflexões e ações sobre temas da multicampia, racismo institucional e estrutural, bem como o debate sobre diversidade e gênero.
Carreira
A Prof.ª Irenísia Oliveira trouxe em suas contribuições apontamentos de que reflexões realizadas sobre carreira são também uma maneira de resistência à forma como o mundo do trabalho acontece na atualidade.
“Pensar o que é uma carreira, de certa maneira, hoje é um conceito central de resistência ao tipo de movimento que o mundo do trabalho tem, porque se é um mundo que fragmenta, que deixa o trabalhador com a ideia de flexibilidade, deixa o trabalhador numa situação de insegurança, então é impossível desenvolver carreira. A carreira está ligada ao desenvolvimento do tempo e ao desenvolvimento de experiência”, pontuou.
A Prof.ª Virgínia Assunção pontuou durante o debate a importância de garantir que o serviço público seja fortalecido a partir do financiamento e gestão pública do mesmo.
“O ANDES, como Sindicato Nacional, e muito preocupado com essa efervescência de contra-reformas e buscando entender como é que nós, professores e professoras, estamos nesse contexto de uma Educação que tem sido cada vez mais tomada por dimensões de gestão privada, e aqui um grande exemplo, os hospitais universitários, que estão em uma gestão privada. (…) A gente se organiza para não naturalizar essa gestão privada de um serviço que é público e que tem que eminentemente ter financiamento público e ser gestado por nós. A universidade sempre fez a gestão. E isso funcionava bem a partir de que a gente tivesse as formas de financiamento de concurso público que é para garantir a boa gestão pública de qualquer espaço”, compartilhou.
A docente compartilhou também durante o debate os dados da pesquisa nacional realizada pelo ANDES-SN sobre a saúde e condições de trabalho docente que demonstram a precarização, fragilidades e desafios vividos na docência.
+ A pesquisa pode ser acessada integralmente em: https://issuu.com/andessn/docs/cartilha_enquete_saudedocente_final
+ O debate completo está disponível no Canal da ADUFC no YouTube:


