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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 59: OS VELHOS TAMBÉM QUEREM VIVER

Irenísia Torres de Oliveira (Professora do Departamento de Literatura da UFC e Vice-Presidente da ADUFC-Sindicato)

Logo que a pandemia de COVID-19 chegou ao Brasil e o próprio presidente da República se encarregou de minimizá-la, como uma doença perigosa “apenas” para idosos e pessoas frágeis, o que não justificaria a paralisação da economia, veio à minha mente o livro Os velhos também querem viver, do escritor português Gonçalo M. Tavares. Eu havia comprado esse livro em 2015, mas outros foram passando à frente na fila da leitura e ele ficava lá, aguardando seu momento. Foi assim até que as trágicas circunstâncias de 2020 acenderam na minha memória essa frase-título, como uma resposta e uma consigna. Os velhos também querem viver. A narrativa de Gonçalo M. Tavares é a releitura da tragédia Alceste, de Eurípides, encenada pela primeira vez em Atenas, no ano 438 a.C. A história da esposa, Alceste, que se oferece para morrer no lugar do marido, Admeto, é reencenada por Tavares no palco trágico do cerco de Sarajevo. Nesse cerco, que durou quase quatro anos, 85 por cento das vítimas da artilharia, instalada nos morros em volta da cidade, eram civis. A história de Alceste é então reescrita aí.

O autor contemporâneo mantém a fábula como está em Eurípides, com poucas modificações. Admeto é ferido na cabeça por um sniper e Apolo busca interferir na ordem natural, conseguindo com a Morte uma possível substituição de corpos. Alguém precisava aceitar morrer no lugar de Admeto. Mas já o novo título mostra que a questão principal na reescrita de Gonçalo M. Tavares não eram o sacrifício e o heroísmo da esposa abnegada, mas os valores envolvidos nesse pedido de sacrifício. “Apolo não dará à má-morte o corpo do bravo Admeto,/ mas sim o da sua mulher que se sacrificou”.

A nova questão proposta pelo livro contemporâneo se apresenta já desde o título, que é tirado de uma fala de Feres, pai de Admeto. Nesse momento, pai e filho travam um diálogo duro, em meio ao cortejo fúnebre de Alceste. Admeto culpa o pai pela morte da esposa. Nem seus pais idosos, nem seus amigos, haviam aceito o sacrifício, só a esposa, a mãe de seus filhos pequenos. E agora ela estava morta, segundo Admeto, devido ao egoísmo de Feres, que, já velho, não aceitara morrer no lugar do filho. É da resposta de Feres a essa acusação que vem o título do livro. “Que a vida não é, diz Feres,/ um cálculo simples, numérico e quantitativo./ Se os novos gostam de viver, os velhos também./ e por que razão a vida de um velho valeria menos/ do que a vida de quem agora começa?/ Que cálculos absurdos são esses? Murmura./ E por que não o contrário? Por que não proteger a sabedoria dos muitos anos,/ em vez da excitação do jovem que ainda quer conhecer?” O pai inverte o juízo de valor, para demonstrar seu absurdo, mas conclui que ambos têm direito à vida. “Não quero demasiado, quero pouco./ Basta dizer que de um lado está um e do outro também./ Dois humanos, os dois merecem. Por que eu – e não tu?” O destino trágico é desencadeado pela interferência de Apolo, que alça uma pessoa acima da comunidade humana, e pela arrogância do herói, que coloca sua vida acima das de seus pais e de sua mulher. Antes, a pergunta já havia aparecido em relação a Alceste, feita pelo próprio narrador: “Em tempo de guerra quem faz mais falta:/ o homem que fora de casa combate/ ou a mulher que dentro de casa protege os filhos/ que mais tarde sairão de casa para combater?/ Não há resposta e nunca houve resposta,/ dentro ou fora de Sarajevo.”

Na fábula contemporânea, elege-se como elemento problemático central a pergunta sobre quais vidas valem menos e o “pedido desumano, violento, obsceno” de que elas se sacrifiquem no lugar das que valem mais. Na escala de valores de Apolo e Admeto, a vida mais valiosa, que deve ser preservada, é a do homem jovem, a do guerreiro; em seguida, a da mulher, que cuida dos filhos, futuros guerreiros; e, no final, as vidas dos idosos. Admeto se sente no direito de interpelar o pai por não se submeter a essa hierarquia de valores, enquanto o pai questiona o raciocínio do filho e cobra dele que tenha aceito viver às custas da morte da mulher.

A tragédia contemporânea que vivemos também tem seus pedidos absurdos. Primeiro, o presidente da república e empresários pediram aos velhos que se sacrificassem, pois seriam apenas eles os afetados; agora, pedem também aos trabalhadores, os que produzem riqueza e cuidam de outros seres humanos, que se sacrifiquem pelo bem da economia e por seus empregos. Do mesmo modo, na tragédia grega pede-se à esposa que se sacrifique pelo marido. Tem sido esse o pedido dos príncipes em meio às tragédias, o “pedido desumano, violento, obsceno” do sacrifício voluntário de vidas que, para eles, valem menos. Feres, ofendido pelo filho no funeral de Alceste, desvela a posição de Admeto frente a ele e à esposa: “Pois bem, eis o mais covarde dos homens, o maior dos parasitas;/ (…) Queres continuar vivo à custa de mais mulheres?/ Quantas? Três, quatro, cem, mil?”

Diante das centenas de milhares de vidas sacrificadas no mundo hoje, é preciso confrontar esse deus Apolo que é o capitalismo, sistema que arma o destino trágico, ao erigir alguns poucos acima de toda a humanidade e mesmo acima do planeta. Para desarmar a tragédia, em vez de aceitar o sacrifício, será necessário perguntar à burguesia covarde e parasita: “por que eu – e não tu?”

Nessa nova fábula, o título se ampliaria: Os velhos, as mulheres, as trabalhadoras e os trabalhadores, os indígenas, as crianças, os jovens, as florestas, os animais, os rios… também querem viver.

Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará

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