(Foto: Nah Jereissati/ADUFC-S.Sind)
O segundo encontro do seminário “Conhecimentos para um projeto de Brasil Anticapitalista” recebeu Ualid Rabah, presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil – FEPAL, na terça-feira (11) no auditório Izaíra Silvino, na sede da ADUFC em Fortaleza.
A mesa de abertura do seminário contou com a coordenação do Prof. Uribam Xavier, Diretor de Relações com Entidades Sindicais e Movimentos Sociais da ADUFC, e da Prof. Lena Espíndola, segunda suplente da ADUFC.
“O tema de hoje é muito caro para nós, ADUFC, seção sindical do ANDES-SN, que tem como uma das suas diretrizes aprovadas em seus congressos nacionais, o apoio à luta da Palestina por uma Palestina Livre”, pontuou o Prof. Uribam Xavier durante a abertura da mesa.
Ualid Rabah, que estava pela primeira vez no Ceará, iniciou a palestra fazendo referência aos elos entre a diáspora palestina no Brasil e o Ceará.
“Esse estado tem uma parcela muito especial da história palestina no Brasil. A diáspora brasileiro-palestina começa a partir do Ceará no final dos 1800. Ela vai e se fixa depois em parcelas do Maranhão, do Piauí, Paraíba e majoritariamente em Pernambuco, especialmente na cidade do Recife. Recife é, em termos comunitários em uma só cidade, a de maior concentração de palestinos no país, podem estar na casa dos 6 a 8 mil palestinos e descendentes. Os primeiros palestinos chegaram a partir de 1893, sendo cristãos da região de Belém, na Palestina”, afirmou.
O palestrante compartilhou também sobre a única santa popular palestina consagrada pela fé popular cearense.
Nessa imigração toda tem outra coisa que acontece somente neste estado [Ceará] e que não aconteceu em nenhum lugar deste continente. (…) Nós temos aqui, no interior deste estado, uma santa popular palestina de Belém, Milad, ou também conhecida como Santa Adelaide. Tem uma igreja, seu túmulo que é venerado, se atribuem a ela milagres. A importância que o Ceará tem para nós como diáspora brasileiro-palestina é muito forte. Quero registrar a minha felicidade de estar aqui, pela primeira vez na vida estou aqui no Ceará”, compartilhou.
Santa Adelaide de Bitupitá é o nome de devoção popular dado a Adelaide Elias Tahim (Milad), nascida em Belém (Palestina) em 1 de julho de 1882. Ela fixou residência no litoral de Barroquinha (CE), na antiga Praia das Almas, atual distrito de Bitupitá. Adelaide faleceu em 1929 e, desde então, tornou-se uma “santa do povo”. Os festejos tradicionais em sua homenagem acontecem anualmente em agosto.






A geopolítica no Oriente Médio e a questão da Palestina
Ualid apontou que a conferência tinha o intuito também de desmistificar alguns elementos que vão sendo colados à questão da Palestina sem maior rigor histórico, inclusive muitas vezes dentro da própria Academia.
“Essa dificuldade de mesmo setores importantes da academia brasileira, setores importantes do pensamento crítico brasileiro, progressista, democrático, popular e civilizatório, de compreender, como se no Oriente Médio, tudo que diz respeito ao chamado Oriente Médio, notadamente uma parcela do mundo árabe ou levantino, no qual está inserida a Palestina histórica, essa dificuldade tem feito com que seja possível falar, e eu sei que tem professores de história aqui presentes, que sobre a Palestina, misteriosamente, todos os mitos acabam valendo como história antiga. Coisa que normalmente a Academia não aceita para o resto de qualquer outra parte do mundo que esteja sob escrutínio histórico, arqueológico, etc”, afirmou.
E completou sobre a questão:
“Então, para a Palestina basta que os mitos velho-testamentários sejam mais ou menos organizados e mais ou menos pseudo-historicizados. Não existe os antigos cananeus, não existe Jericó, a cidade mais antiga do mundo, não existe os cananeus construindo as mais antigas cidades-estado do mundo, não existe os cananeus construindo a língua que nós praticamente falamos, o alfabeto que nós falamos, porque os fenícios nada mais são do que derivação dos antigos cananeus, os arameus e o aramaico nada mais é, a língua de Cristo, do que derivação dos antigos cananeus, e os libaneses hoje, os palestinos hoje, os sírios hoje, em parte os iraquianos, os jordanianos, em parte os sauditas, e até mesmo em parcela dos egípcios, este mundo é essencialmente cananeu”, pontuou.
Outro elemento importante apontado durante a palestra foi, segundo o professor, a quebra do paradigma dos “dois ladismos” que existia na universidade e na opinião pública brasileira, onde tudo que gerasse algum tipo de debate precisaria trazer também “o outro lado” para a mesa.
“A Universidade Brasileira e na opinião pública brasileira de um modo geral e ocidental, em tudo aquilo que geraria algum debate, alguma circunstância capaz de discutir a Palestina, sempre alguém dizia (…) e o outro lado? Para debater o genocídio na Palestina tem que ter o outro lado, o genocida. Para discutir o colonialismo, o outro lado que vai dizer que aquilo não é colonialismo, que não é limpeza étnica, que não é uma supremacia baseada em uma fé religiosa, e que não é, e que não é, e que não é, e que finalmente israel, apesar de ser um projeto colonial, etc., é uma democracia, e que o sionismo, apesar de ser uma ideologia equivalente a todas as coloniais supremacistas e ao nazismo, inclusive, e superando ele em vários aspectos, porque é anterior ao nazismo. Muita gente comete o equívoco de dizer que os sionistas aprenderam com o nazismo. Não, eles não aprenderam nada. O sionismo existe há pelo menos 30 anos antes do nazismo surgir. (…) E esses ‘dois ladismos’ sempre destruíram a possibilidade de debater a questão palestina aqui”, afirmou.
O professor apontou a necessidade de que o chamado “Oriente Médio” possa ser discutido de forma mais ampla. Entender que esse território, que compreende parte dos continentes asiático e africano, contém as mais importantes reservas de gás e petrolíferas do mundo, inclusive algumas delas de mais barata extração.
“Nós queremos discutir o Oriente Médio mais amplamente. O mundo chamado Árabe, e Oriente Médio incluindo Turquia e Irã, e ele pode ser ampliado para incluir nele a parte africana árabe, e estendê-lo até o Afeganistão, o Paquistão, o Oriente Médio ultra-estendido, é uma região do mundo em que, primeiro, temos nela a mais importante conectividade até os dias de hoje. Nós estamos falando do Mediterrâneo Oriental, em todo o Mediterrâneo, claro, mas especialmente o Mediterrâneo Oriental. Estamos falando do Mar Vermelho, que conecta por aquilo que nós convencionamos chamar de canal de Suez, que na sua forma mais rudimentar e antiga, existe desde os faraós como canal artificialmente feito. Isso é bom registrar. Porque é uma mania do ocidente dizer que a civilização começou com o iluminismo, que não existiu mais nada”, apontou.
Dentre os muitos elementos abordados durante a conferência, Ualid apontou também as hipóteses de ocupação territorial que os sionistas discutiram antes da decisão pelo território palestino, que apontam lugares como Argentina, Madagascar e Nova Zelândia. Debates registrados no livro “O Estado Judeu”, de Theodor Herzl.
“Em o Estado Judeu são aventadas, ainda não se fala em Palestina, são aventadas hipóteses territoriais para a realização desse projeto. Fala-se em Argentina, está lá textualmente nessa obra. Fala-se em Madagascar, Uganda e outras partes do mundo. Até a Nova Zelândia é aventada. E fala-se também na Palestina. Aqui cabe uma digressão. Se o sionismo poderia se realizar na Argentina, que retorno é esse para a Argentina? Se ele pode ser em Madagascar, qual que é o muro das lamentações de Madagascar? Se ele pode ser em Uganda, qual que é a Jerusalém que há em Uganda?”, pontuou.
Um marco durante o debate foi também o questionamento sobre a afirmação, muito realizada pelos sionistas, de que a Palestina seria uma terra sem povo. Sobre o assunto, Ualid acredita que um dos grandes questionamentos que deve ser feito com rigor histórico é: a Palestina era uma terra sem povo?
“O pulo do gato é aquela frase que ficou famosa atribuída ao Theodor Herzl. Uma terra sem povo, para um povo sem terra. (…) O que acho que devemos debater é, a Palestina era uma terra sem povo? Desde a Bíblia e desde os egípcios há uma série de textos faraônicos sobre a fartura da Palestina, as alianças com as cidades-estados, os pequenos reinos, e a proteção egípcia a esses pequenos reinos. (…) Pegando a Bíblia, o Novo Testamento, só se fala de leite, mel, um monte de gente, cidades, uma cidade pra cá, outra cidade pra lá, Jesus visitando elas. Resulta que a Palestina, nesta época de 1897, tinha aproximadamente 20 habitantes por quilômetro quadrado. Essa era a densidade demográfica da Palestina naquele momento. (…) O projeto sionista colonial é o único da história humana que nasce com uma carta de ‘Pero Vaz de Caminha’, mais ou menos informando: Descobrirá, entre aspas, porque não houve descobrimentos, mas pra gente falar disso com mais liberdade, e dizimarás. Os demais projetos coloniais não foram regimes de apartheid? Os supremacistas? Foram! Houve momentos genocidais e todos eles descambaram em algum momento para os genocídios, sim, mas nenhum deles saiu com a premissa absoluta de que aquele projeto só poderia ser realizado com o extermínio integral da população originária e sua substituição. Só o sionista”, afirmou.
A atividade teve duração total de três horas e contemplou, além da palestra principal, intervenções da plateia seguida por réplica do palestrante.
A palestra completa está disponível no canal da ADUFC no YouTube:
Futebol, Política e América Latina
Na próxima terça-feira (11), a ADUFC realiza a terceira palestra do Seminário “Conhecimentos para um projeto de Brasil Anticapitalista” com o tema “Futebol, política e diversidade latino-americana”. O palestrante convidado é Fabio Luis Barbosa dos Santos, professor de Relações Internacionais da Unifesp e autor, entre outros, do livro “Uma história da onda progressista sul-americana (1998–2016)”.
A atividade, que tem início às 19h no Auditório Izaíra Silvino, localizado na sede da ADUFC em Fortaleza, é uma iniciativa do Grupo de Trabalho de Política de Formação Sindical da ADUFC. O seminário tem o intuito de partilhar elementos da ciência política, da economia, da sociologia, da literatura e das tecnologias para capacitar nossa comunidade a desenvolver um entendimento plural e profundo da nossa realidade, bem como contribuir para a qualificação de ativistas políticos e sociais.
Antes da palestra, às 18h, o professor irá realizar o lançamento do livro “Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol” que será vendido pelo valor promocional de R$ 33,00.
A programação é aberta e gratuita. Contamos com a presença dos/as docentes e de toda a comunidade universitária. A atividade contará com intérpretes de Libras e disponibilizará certificados (inscrições realizadas durante o evento).
Confira a programação vindoura dos seminários de agosto:
Dia 18/8 – Futebol, política e diversidade latino-americana – Fabio Luis Barbosa dos Santos – Professor de Relações Internacionais da Unifesp e autor, entre outros, do livro “Uma história da onda progressista sul-americana (1998–2016)”. Na ocasião, haverá o lançamento do livro do Prof. Fabio Luis: “Saudades do que nunca fomos: brasileiros e o futebol”, publicado pela Editora Elefante.
Dia 25/8 – Para pensar, de novo, um projeto de país. Expositor convidado: Antônio Martins – Jornalista e editor do boletim político e cultural Outras Palavras.




