Financiamento da educação pública, condições de trabalho, permanência estudantil, ações afirmativas, aposentadoria, comunicação sindical e organização coletiva foram temas debatidos por docentes, estudantes e representantes de movimentos sociais durante o Encontro da Regional Nordeste-I do ANDES-Sindicato Nacional (ANDES-SN), realizado no Cariri cearense.
Ao longo de dois dias de atividades, representantes do Ceará, Piauí e Maranhão participaram de mesas de debate, grupos de trabalho e atividades culturais voltadas à construção de estratégias de fortalecimento da universidade pública e da organização sindical na região. A programação foi aberta no Salão de Atos da Universidade Regional do Cariri (URCA), no Crato, com apresentação da Mestra Maria de Tiê, e se desenvolveu em diálogo com uma das mais tradicionais manifestações culturais do Nordeste: a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha.
Financiamento, autonomia e permanência
A mesa de abertura reuniu representantes dos movimentos docente, estudantil e social para discutir os impactos do financiamento sobre a qualidade, o acesso e a permanência nas instituições públicas de ensino superior. Ao apresentar dados sobre o orçamento das universidades federais, a Prof.ª Maria do Céu de Lima, da diretoria do ANDES-SN e docente da Universidade Federal do Ceará (UFC), destacou que as restrições financeiras afetam diretamente a autonomia universitária.
“Quando a gente olha para esses dados, nós estamos falando do retrato de uma crise que afeta a autonomia universitária de forma crucial. E lembrar que a Constituição estabelece autonomia universitária, mas também o direito à educação pública e o direito à educação superior”, pontuou.
Na ocasião, foi lançado o Dossiê “5%: Uma Dívida Histórica”, documento que faz parte da campanha conduzida pelo SINDUECE, SINDURCA e SINDIUVA, que reivindica do Governo do Estado do Ceará o repasse de 5% da receita líquida de impostos para o financiamento das universidades estaduais, conforme determina o artigo 224 da Constituição Estadual.
O Prof. Ivan Carneiro, presidente do Sindurca, destacou que a ausência de financiamento se revela na precarização do trabalho, na infraestrutura e na ausência ou fragilidade de políticas de assistência.
O deputado estadual Renato Roseno (PSOL-CE), cujo mandato apoiou o estudo dos sindicatos sobre a situação das estaduais, chamou atenção para os impactos do desinvestimento público sobre a qualidade da formação oferecida pelas instituições e criticou a expansão do ensino superior sem a garantia de condições adequadas de funcionamento.
“Não é uma expansão pela expansão. É necessário compreender que a falta de docentes, a falta de estrutura e a ausência de investimento representam mais do que desfinanciamento: representam um projeto político de desresponsabilização da educação pública para expansão da acumulação privada, especialmente por meio de cursos de baixa qualidade ofertados pela rede privada”, finalizou.
Representando o movimento estudantil, Angela Abuk, do Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFC, defendeu que a permanência estudantil deve ocupar lugar central nas políticas universitárias.
“Se a gente fala em ensino, pesquisa e extensão como tripé da universidade, a permanência precisa ser um desses pilares. Sem a permanência, essa universidade não existe. Sem a permanência, essa universidade não funciona”.
Angela também compartilhou sua própria trajetória para destacar o papel transformador da educação pública.
“Eu sou uma jovem negra, travesti da periferia de Fortaleza e acessar a universidade mudou a minha vida radicalmente. Eu posso dizer que sou uma outra pessoa depois que entrei na universidade”.




Que universidade queremos?
A discussão sobre financiamento serviu de ponto de partida para um debate mais amplo sobre o projeto de universidade defendido pelo movimento docente.
Presidente do ANDES-SN, o Prof. Cláudio Anselmo reafirmou a defesa de uma universidade pública, gratuita, autônoma e socialmente referenciada, destacando que a expansão e a interiorização do ensino superior precisam estar acompanhadas de condições efetivas de permanência e democratização.
As atividades seguintes aprofundaram temas como ações afirmativas, racismo institucional, inclusão de pessoas trans, diversidade, acesso à carreira docente e permanência estudantil. A Prof.ª Ana Luísa Araújo de Oliveira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), abordou os desafios da implementação das cotas nos concursos docentes e a necessidade de enfrentar desigualdades históricas dentro das instituições.
Já a Prof.ª Ana Paula dos Santos, da Universidade Federal do Cariri (UFCA), defendeu a ampliação das políticas afirmativas para a pós-graduação e para grupos historicamente excluídos dos espaços universitários, enquanto Charlie Renatti, do Coletivo Transmasculines do Cariri, trouxe para o debate as barreiras enfrentadas pela população trans para acessar e permanecer na universidade.
Os grupos de trabalho realizados durante o encontro, no sábado (30) pela manhã, ampliaram essas reflexões, abordando temas como seguridade social, aposentadoria, comunicação sindical, cultura, questões étnico-raciais, diversidade sexual e a relação entre universidade, território e movimentos sociais. Em comum, as discussões apontaram para a necessidade de fortalecer uma universidade comprometida com a inclusão, a democracia e a transformação social.




Formação sindical, acolhimento e construção coletiva
O encontro também foi marcado pela troca de experiências entre docentes de diferentes instituições e gerações. Docente da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), a Prof.ª Jacqueline Costa destacou a importância dos vínculos construídos ao longo da programação.
“Eu queria dizer da minha profunda alegria de ter participado desse encontro. É a primeira vez que eu participo e eu me senti muito fortalecida, me senti muito acolhida. […] Ver que, se a gente ficar sozinha na base, a gente vai adoecer. Que só a luta muda a vida. […] Eu voltei do encontro com muitas ideias, com muitas redes, com muitos projetos. […] Foi um espaço de cura para mim esse encontro”. Para ela, o encontro representou uma oportunidade de ampliar redes de apoio, construir novos projetos e renovar o compromisso com a atuação sindical.
A percepção de que a organização coletiva é também um espaço de cuidado apareceu em diversos momentos da programação, especialmente nos debates sobre saúde mental, condições de trabalho, aposentadoria e permanência estudantil.

Entre a universidade e a rua
Se as mesas discutiram os desafios da universidade pública, o encerramento da programação levou essas reflexões para as ruas. No domingo, participantes do encontro se somaram à Frente de Mulheres do Cariri no tradicional Cortejo do Pau da Bandeira de Santo Antônio, em Barbalha, manifestação cultural que reúne centenas de milhares de pessoas todos os anos.
Para a Prof.ª Helena Martins, docente da UFC e primeira-secretária da Regional Nordeste-I, a escolha de realizar o encontro em meio à festa popular reforçou uma compreensão ampla da ação sindical.
“O encontro debateu o projeto de universidade que queremos, partindo de uma análise do financiamento, das condições de trabalho e do acesso e da permanência dos estudantes. […] Outro ponto de destaque foi realizá-lo em meio a uma festa popular tradicional. A cultura nos identifica, nos fortalece, mostra a beleza da comunidade e reforça nosso questionamento da dinâmica individualista e mercadológica tão hegemônica hoje. Nosso sindicato entende que tudo é política e que disputamos e construímos um modo de vida.”
A Prof.ª Amanda Pino, primeira-tesoureira da ADUFC e docente da UFCA, destacou que a atividade permitiu aproximar a universidade dos territórios e das comunidades. “Participar do Cortejo do Pau da Bandeira juntamente com a Frente de Mulheres do Cariri foi uma experiência indescritível. […] Fez com que as nossas pautas, os nossos cartazes e a nossa luta por uma educação comprometida com a transformação social se materializassem de uma forma muito direta, muito bonita. […] Foi uma forma de levar a universidade para onde o povo está.”
A participação no cortejo também teve um significado pessoal para muitas das docentes presentes, articulando identidade, militância e pertencimento ao território. “Enquanto mulher, professora, LGBT e caririense que já me considero, uniu muitos elementos que atravessam a minha vivência enquanto militante. […] Foi para além de um marco político, também um momento de muita emoção”, disse Amanda Pino.
Ao lado da Frente de Mulheres do Cariri, docentes e estudantes desfilaram com cartazes em defesa da educação pública, dos direitos das mulheres, da Chapada do Araripe, contra o feminicídio e pela transformação social. A participação no cortejo evidenciou uma das marcas do encontro: a compreensão de que a defesa da universidade pública não se limita aos espaços institucionais, mas se constrói também na cultura, nos territórios e nas relações de solidariedade que sustentam as lutas coletivas.
Em uma região que segue mobilizada pelo enfrentamento à violência de gênero, a presença da Frente de Mulheres do Cariri também reforçou a importância da organização social e feminista na defesa da vida das mulheres. As pautas levadas ao cortejo dialogaram diretamente com a luta contra o feminicídio, tema que permanece entre os principais desafios para os movimentos de mulheres no interior cearense.
Entre debates sobre financiamento, democracia universitária e diversidade, o Encontro da Regional Nordeste-I reafirmou a defesa de uma universidade pública comprometida com a produção do conhecimento, a justiça social e a transformação da realidade brasileira. Além disso, mostrou que a organização sindical se fortalece quando consegue articular formação política, pertencimento, cultura popular e ação coletiva.
















