O mais valioso patrimônio da universidade pública é a sua comunidade. Estudantes, docentes e técnicos-administrativos formam juntos os pilares indispensáveis para haver produção de conhecimento socialmente referenciado e de qualidade. Se a comunidade universitária é o alicerce central para o funcionamento da instituição de ensino superior, então, ela deve sempre estar na prioridade da agenda. E é a falta de prioridade nas políticas de assistência estudantil ao longo dos anos, apontada pelos representantes do Fórum de Estudantes Internacionais da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB), que levou os estudantes a paralisarem as atividades na última quarta-feira (04).
A ADUFC ouviu vários/as estudantes da UNILAB que estão mobilizados/as, no entanto, não irá identificar o nome e a nacionalidade dos/as estudantes com o intuito de preservá-los/as de possíveis perseguições políticas.
No dia 23 de dezembro de 2025, a Pró-Reitoria de Políticas Afirmativas e Estudantis (Propae) da UNILAB lançou uma nota no site da universidade informando aos estudantes classificados/as no Processo Seletivo do Programa de Assistência ao Estudante (Paes) que não havia previsão para o início do recebimento de auxílios.
“A gente está fazendo esse movimento por causa da falta de assistência estudantil. Os estudantes de 2025 foram contemplados pela bolsa, mas não receberam o auxílio desde janeiro deste ano”, conta um/a estudante sobre o estopim da mobilização em 2026.
Na manhã da última terça-feira (03), os/as estudantes realizaram uma mobilização no Campus da Liberdade, localizado em Redenção (CE), reivindicando sua permanência na Universidade. O movimento estudantil da UNILAB questiona a impossibilidade de acesso à residência universitária que, apesar de ter parte da estrutura pronta, nunca foi inaugurada; a inexistência de um plano emergencial relacionado aos auxílios estudantis; e o não cumprimento de promessas relativas à política de assistência estudantil realizadas nas campanhas eleitorais para reitoria.
“Também estamos a exigir a inauguração da casa estudantil, desde o semestre passado foi muito divulgado que ia ser entregue, mas até agora nada. Os estudantes estão sendo expulsos das casas onde moram, estão passando mal. Fizemos tudo o possível dentro da universidade, mas nada foi resolvido. O governo precisa saber que estamos passando por uma situação lamentável”, explicou o/a estudante.
A reivindicação estudantil tornou-se unificada entre os/as estudantes da UNILAB no Ceará e na Bahia. O perfil Unilab Resiste e Coletivo Vozes Negras trouxeram uma lista das situações enfrentadas há anos pelos discentes. Entre os principais problemas estão:
- O valor base do auxílio permanece em R$ 530, sem atualização suficiente para acompanhar o custo de vida no Brasil;
- Os valores não garantem moradia, alimentação e permanência estudantil integral;
- Os restaurantes universitários (RU) vivem lotados e frequentemente a comida acaba antes do horário previsto de funcionamento;
- Já foram relatados casos de larvas e objetos encontrados dentro da comida do RU;
- O transporte intercampi enfrenta falta de manutenção, superlotação e poucos ônibus em circulação;
- A universidade não possui residência universitária para estudantes.
A situação de vulnerabilidade relacionada ao acesso à moradia dos/das estudantes da UNILAB em Redenção torna-se ainda mais nefasta diante dos impactos da especulação imobiliária que a cidade sofre.
“Temos escassez de casas, as casas são muito caras, e mesmo assim não se encontra muitas vezes. Existem estudantes que estão sem ter onde viver porque não encontram casa. E, quando encontram, são precárias ou caríssimas”, relatou o/a estudante.
Em nota lançada no dia 05 de março, a Reitoria da Unilab destacou sobre o tema da residência universitária que “embora a estrutura física dos prédios esteja concluída e apta para plena utilização, a data da inauguração aguarda manifestação do Governo Federal. A efetiva ocupação depende da finalização e operação do sistema de esgotamento sanitário do município de Redenção, que é de responsabilidade da Cagece. Sem o devido saneamento, o prédio não possui condições de habitabilidade e higiene”. Em resposta a questionamentos da ADUFC, a UNILAB reiterou as informações da nota e sinalizou que a capacidade total da residência universitária seria de 1.400 discentes.
Em resposta à questionamentos da ADUFC, a UNILAB reiterou as informações dispostas na
“Nós não estamos nos manifestando só pelos estudantes internacionais, todos os estudantes da UNILAB são impactados pela falta de assistência estudantil. Problemas como a falta de ônibus, a lotação dos restaurantes universitários, a falta de materiais nas aulas práticas, entre outras questões. Essas coisas não podem ficar assim, não são reclamações de hoje, são reclamações fruto de anos de promessas. Tudo isso se acumulou e estamos fartos. Queremos ouvir o MEC e as pessoas que possam nos dizer algo. Devemos sair da universidade?! A UNILAB promete integração e não tem integração dentro da universidade”, complementou.
Outro tema de preocupação dos discentes é o acolhimento de novos/as estudantes internacionais. Segundo o movimento, o programa de acolhimento recai sobre os próprios estudantes, tendo uma escassez de políticas estruturais de acolhimento pensadas institucionalmente para melhor orientar e acolher as pessoas que acabam de chegar não só no ambiente universitário, mas também em um novo país.
“Gostaríamos também de destacar a chegada dos novos estudantes internacionais da UNILAB. Não adianta nada a universidade receber novos estudantes internacionais que vão encontrar uma situação já caótica na universidade. É preciso resolver os problemas internos antes de trazer mais estudantes internacionais”, afirmou a/o estudante.
Foi convocada para segunda-feira (09), às 18h30, uma assembleia estudantil conjunta (Ceará/Bahia).
Cortes na Educação Pública
Os cortes na educação federal impactam diretamente a UNILAB e agravam a crise da assistência estudantil na instituição que já perdura por anos. Apesar do governo federal ter recomposto o orçamento da educação federal, que havia sofrido um corte na Lei Orçamentária Anual (LOA 2026) pelo Congresso Nacional em quase 500 milhões de reais, o investimento brasileiro na educação federal ainda está aquém do necessário. O Brasil investe atualmente cerca de 5,9% do PIB em educação e apenas 0,9% em educação superior, patamar inferior à média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Em matéria do ANDES-SN sobre a recomposição do orçamento do MEC, o Prof. Marcelo Vallina, 1º vice-presidente da Regional Norte 1 e da coordenação do Setor das Instituições Federais de Ensino (Ifes) do ANDES-SN, lembrou que a recomposição do orçamento pelo governo federal, após os cortes feitos pelo “Congresso inimigo do povo”, é como a história da remoção do bode da sala: quando ele é retirado, você fica feliz. No entanto, não supre a necessidade de recursos das instituições para garantir o pleno funcionamento, com qualidade, das universidades, institutos federais e cefets.
“Indubitavelmente, a denominada “recomposição” pode parecer um alívio, mas só tiraram o bode da sala, ou seja, a situação orçamentária para 2026 continua gravíssima”, alertou. “Como temos discutido no ANDES-SN, a situação do financiamento do ensino superior é cada vez mais grave. Só para dar um exemplo, o percentual de recursos destinado no Plano Plurianual (PPA) Lula-Alckmin (2024-2027) é inferior ao do governo Bolsonaro”, acrescentou.
Os discentes do Fórum de Estudantes Internacionais da UNILAB relataram também uma grande preocupação com a falta de respostas efetivas sobre a fragilidade da política de assistência estudantil que ameaça a permanência dos/as estudantes da universidade.
“São as mesmas respostas de sempre: que não tem orçamento, não tem como, que vão ficar sem dinheiro… E é preocupante porque são centenas de alunos/as. Os que chegarem agora não vão receber auxílio, acolhimento… Dessa forma, não tem nenhuma estabilidade para continuar os estudos”, alertou o/a estudante internacional sobre a situação da UNILAB.
A ADUFC reforça como prioridade no ano de 2026 a luta pela recomposição do orçamento das universidades públicas, bem como a renovação do Congresso Nacional com políticos que garantam os interesses da classe trabalhadora, reforçando a defesa dos recursos federais para as políticas sociais em contraposição ao sistema financeiro.


