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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 67: ESTUDO REMOTO? DE QUE JEITO? HÁ PROVEITO?

Severina Flor (Pseudônimo de Estudante da UFC)

De repente, sem nenhum preparo, os índices da pandemia em alta, a reitoria da Universidade anuncia o retorno às aulas, de modo remoto ou híbrido. A professora nos incentiva a escrever sobre nossas condições e como estamos passando. Respondo que são as piores condições possíveis!

Para começar, eu tenho duas filhas, uma de 7 e outra de 3 anos de idade. Elas precisam de supervisão e orientação para as atividades remotas da escola em que estudam. Tenho que estar ligada na agenda e assistir às aulas com elas (caso contrário, elas não prestam atenção, pois são crianças e o pensamento delas é voltado, na sua grande maioria, para brincadeiras). Após assistirmos, é necessário que eu lhes dê aula sobre o mesmo conteúdo das vídeo-aulas, a fim de sanar as dúvidas e ensinar as tarefas. Estou constantemente fazendo comida, higienizando a casa, cuidando de tudo e de todos. Além de tudo o que foi citado, eu estudo, trabalho e sou membro da diretoria sindical da minha categoria. Às vezes, divido as tarefas com meu marido; outras vezes, ele precisa de um tempo para si…

Meu marido está sofrendo de depressão e ansiedade. Seu quadro clínico piorou nesse período da pandemia. Tem sido difícil lidar com o adoecimento do meu esposo, pois há dias em que seu problema é imperceptível, mas há dias em que até o banho torna-se um dilema, um sacrifício. Ele toma dois comprimidos ao acordar e um para dormir. Vejo que ele se esforça para superar, mas nem sempre consegue.

Eu trabalho à noite, e durante o dia tenho que dar conta de várias tarefas domésticas. Por vezes, não tenho tempo nem para dormir, quiçá para estudar! O sono pesa. Sinto que meu corpo está exausto…

Como mencionei, sou sindicalista e a minha categoria está colapsando. Há anos estamos sem reajuste salarial. Estávamos em uma negociação de valorização profissional e salarial, quando a pandemia se instalou em nosso Estado. A mídia anuncia(va) uns episódios de desvio de verbas públicas e gastos superfaturados, o que leva o nosso efetivo a grandes revoltas e cobranças de reação de nossa parte como diretoria sindical. Em geral, a categoria esbraveja que “o Governo tem dinheiro para tudo, menos para regularizar o nosso salário”. Cada polêmica que surge é uma onda de cobrança sobre o sindicato. Já houve casos de suicídios de profissionais da nossa categoria e alguns colegas afirmam ter sido pela desvalorização profissional e salarial. Nosso contexto de trabalho é intenso e complexo e eu não só acredito, mas também estudo, que o fenômeno do suicídio pode ser resultante de um somatório de fatores; logo, a nossa questão salarial não seria o único causador desse fenômeno entre os profissionais da minha área, como alguns insistem em dizer.

Voltando ao seio familiar… Minha mãe foi contaminada pelo novo coronavírus. A Covid-19 causou uma inflamação em seu coração, causando-lhe um pré-infarto, durante o costumeiro cochilo em uma tarde. Foi necessário levá-la às pressas ao Hospital do Coração. Com esse episódio, passou a apresentar diversos sintomas de pânico. Desse modo, não quer dormir nem comer, está com um quadro de vertigem acentuado, medo de morrer… A única rede de apoio dela sou eu, minha irmã e meu cunhado. Nesse contexto, meu pai passou a reclamar demasiadamente quanto aos gastos com médicos, remédios e terapias que foram indicadas para minha mãe. Isso gerou um conflito entre meu pai e meu irmão mais novo, que coabita com eles, que passou a discutir com nosso pai, (des)considerando o quadro clínico dela. Preciso dizer que essas confusões diárias pioram o quadro de minha mãe? Não, né?… Ela se sente mal pelo fato de ter saído do papel de cuidadora e estar recebendo cuidados nesse momento de fragilidade e chora facilmente.

Minha filha mais nova está dentro do espectro autista. Ela recebe acompanhamento multidisciplinar pelo SUS e pelo plano de saúde. O encarregado de levá-la às terapias (e a estimula nas habilidades sociais) é meu esposo. Entretanto, em virtude de seu quadro depressivo, há dias em que ela perde as sessões de terapias e não tenho como cobrar algo dele, já que está se esforçando ao máximo para ficar de pé. Minha filha mais velha não tem se adaptado bem às aulas remotas. Para falar a verdade, nem eu!

Enfim, antes da quarentena, já estávamos vivenciando alguns contratempos. Às vezes, tenho a sensação de estar insustentável. Essa é a palavra: in-sus-ten-tá-vel! Há dias em que penso que não irei conseguir suportar. Seria hipocrisia ou ironia de minha parte, ser estudante de Psicologia com tantos transtornos em minha volta?

Não sei como vou fazer para que todos nós possamos assistir aulas remotamente, termos algum rendimento escolar/acadêmico positivo, que eu consiga dar conta de todas as outras demandas, bem como ter um convívio social com alguma saúde mental. Todavia, estou aqui para encarar o desafio das aulas remotas e tentar superar essas dificuldades. Que venham tempos melhores!!!

Seção sindical dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará

Av. da Universidade, 2346 – Benfica – Fortaleza/CE
E-mail: secretaria@adufc.org.br | Telefone: (85) 3066-1818

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