Protesto contra o assassinato de Chico Mendes, seringueiro, dirigente sindical e liderança ambientalista do Acre, assassinado por fazendeiros em 1988, após conquistas internacionais para preservação da Amazônia (Acervo Centro de Pesquisa Vergueiro)
O que a luta pela proteção do rio Tapajós, as enchentes na Zona da Mata de Minas Gerais, o calor exacerbado de Fortaleza e a seca grave em quase 100 municípios cearenses têm a ver? A emergência climática já chegou e está atingindo, inclusive com mortes diretas, as camadas mais vulneráveis da população. Estamos vivendo um momento em que o sistema capitalista já impactou a vida no planeta o suficiente para entendermos que a mudança climática não é um assunto para o dia de amanhã, e sim que diz respeito à sobrevivência de milhares de pessoas no dia de hoje.
Para os povos indígenas e comunidades tradicionais, essa é uma pauta antiga. Vendo o próprio mundo ser destruído por diversas vezes, a concepção de natureza como sujeito de direitos, bem como parte inseparável da humanidade, é uma forma inegociável de pensar o mundo.
O governo federal revogou na última segunda-feira (23) o Decreto n.º 12.600/2025, que previa a inclusão de trechos dos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Com a decisão, foram canceladas as obras de dragagem previstas na região amazônica. A justificativa do governo para a realização da dragagem era a ampliação do escoamento dos produtos do agronegócio, como a soja. É importante ressaltar que a revogação foi fruto direto da luta dos povos indígenas e ribeirinhos que estavam mobilizados por 33 dias ininterruptos bradando o óbvio: a vida não pode estar a serviço dos interesses econômicos das grandes corporações. A medida foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) e representa uma vitória histórica dos povos indígenas e ribeirinhos, assim como um ganho para toda a humanidade.

A distância entre o rio Tapajós (Pará) e o rio Ceará (Ceará) é de aproximadamente 2.300 km em linha reta. Uma distância que deixa de existir quando a pauta da justiça climática está no foco.
A Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (SEMA) apresentou dados alarmantes no Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Estado do Ceará. Entre os anos de 2018 e 2023, a emissão desses gases por desmatamento aumentou 172% no Ceará. No centro desses dados, os modelos corporativos de energia eólica e agropecuária.
Segundo a pesquisa do Inventário, “as emissões pela alteração do uso da terra, em especial o desmatamento, permanece como um dos componentes mais impactantes das emissões, elas cresceram de 4,79 MtCO₂e em 2018 para 13,3 MtCO₂e em 2023, um aumento de 172%, associado principalmente à conversão de áreas naturais em usos agropecuários e áreas sem vegetação, que podem estar relacionadas com a expansão das usinas eólicas no estado. Destaca-se que 97% das emissões nesta categoria são oriundas da transição para uso agrícola e pecuário.”
A ampliação dos gases de efeito estufa na atmosfera contribui para o desequilíbrio energético do sistema climático e leva à maior frequência, intensidade e duração de eventos extremos, como ondas de calor, secas prolongadas, inundações, ciclones tropicais, entre outros.
Na cidade de Fortaleza, as ondas de calor já são realidade. Uma realidade que impacta principalmente a população que vive nos bairros menos arborizados da cidade. Segundo estudo que está em desenvolvimento pelo Laboratório de Climatologia e Estudos Ambientais (Climas), do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), quase 70% dos bairros de Fortaleza já atingem 40ºC.
Segundo os/as pesquisadores/as do Climas/UFC, apesar do extremo calor atingir a maior parte da cidade, as altas temperaturas são mais sentidas nos bairros periféricos, onde os habitantes vivenciam maior desconforto térmico. Bairros arborizados, como o Cocó e o Salinas, chegam a ser 7ºC mais frescos do que bairros pouco arborizados. Os dois bairros possuem alta preservação de vegetação, com o Salinas tendo 66% de cobertura vegetal urbana e o Cocó 44%. Os dados são do Instituto de Pesquisa e Planejamento de Fortaleza (Ipplan).
Segundo a pesquisa, a tendência é que as temperaturas sigam crescendo em toda a cidade. E, com a falta de políticas públicas efetivas que enfrentem a emergência climática e o racismo ambiental, a realidade será de crescente ameaça à vida.
Vale lembrar que Fortaleza sofreu o maior desmatamento da última década em setembro de 2025, quando a Fraport, empresa alemã que opera o Aeroporto de Fortaleza (Pinto Martins), desmatou de forma ilegal cerca de 40 hectares de Mata Atlântica no entorno do Aeroporto.
Atualmente, várias áreas verdes em todo o Estado do Ceará correm sérios riscos. Alguns exemplos são o Cerradinho Abreu Matos, localizado na Av. Oliveira Paiva, sendo a última floresta de cerrado em Fortaleza, que tem previsão de desmatamento para a construção de apartamentos pela empresa Idibra; a Floresta do Araripe, no Cariri, enfrenta sérios riscos de desmatamento, com denúncias indicando ameaça de perda de até 100 mil hectares devido à expansão do agronegócio de soja e algodão; o segundo maior rio do Ceará, o rio Acaraú, em Sobral, está com níveis alarmantes de poluição; a tentativa de redução do Parque Bisão, do riacho Maceió, localizado no bairro Mucuripe, em Fortaleza, para a especulação imobiliária; além dos diversos e constantes ataques contra as comunidades indígenas cearenses que são reconhecidamente defensoras da biodiversidade.
Junta-se a esse cenário a atualização mais recente do Monitor de Secas (Funceme), que demonstra que 42,04% do território cearense apresenta condição de seca grave, atingindo diretamente 95 municípios do estado.

Mapa de Seca Relativa Máxima do Ceará em Dezembro de 2025 (Fonte: Funceme)
Esse é o pior cenário registrado desde dezembro de 2018, quando se observa a proporção de área afetada por seca grave. O agravamento do quadro está associado, principalmente, à escassez de chuvas ao longo do segundo semestre de 2025, período que normalmente contribui para a recomposição hídrica em diferentes regiões do estado, mas que, desta vez, apresentou volumes abaixo do esperado.
Com o avanço da seca grave, os impactos já começam a ser sentidos em diversas áreas. Entre os principais efeitos destacados pelo Monitor estão as perdas prováveis de culturas agrícolas e pastagens, a escassez de água em comunidades rurais e urbanas e a imposição de restrições no uso da água, especialmente em municípios mais vulneráveis.


