Memórias de Quarentena – ADUFC https://www.adufc.org.br Seção Sindical dos(as) Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará Thu, 07 Jan 2021 15:12:27 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=7.1 https://www.adufc.org.br/wp-content/uploads/2023/01/cropped-logo-adufc-32x32.png Memórias de Quarentena – ADUFC https://www.adufc.org.br 32 32 MEMÓRIAS DE QUARENTENA 75: UM RELICÁRIO DE MEMÓRIAS, EMOÇÕES E GRATIDÕES: TEXTO FINAL https://www.adufc.org.br/2021/01/07/memorias-de-quarentena-75-um-relicario-de-memorias-emocoes-e-gratidoes-texto-final/ Thu, 07 Jan 2021 15:12:27 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=16377 Ângela Pinheiro (professora da UFC), Alba Carvalho (professora da UFC) e Camila Holanda (professora da UECE).

Palavras, palavras,
se me desafias,
aceito o combate

(Carlos Drummond de Andrade)

A pandemia da Covid-19, ao irromper entre nós, em março de 2020, veio com efeito de um turbilhão, a desmontar a nossa vida construída, vida de todo dia… Frente a este fenômeno, urdido nas tramas desta civilização capitalista, a vida parecia estar de “cabeça pra baixo!” Então, decidimos nos juntar e enfrentar este inimigo, que se apresentava desconhecido, registrando nossas memórias através do partilhar de palavras, acatando o combate anunciado por Drummond, nos versos de “O lutador”.

E, assim, nasceu Memórias de Quarentena, sem muitas pretensões, a não ser partilhar a vida em textos, neste momento de medos, inseguranças e instabilidades. A iniciativa foi tomando formas, reunindo relatos de pessoas com inserções, emoções e realidades diversas. Foi um registro de experiências vividas na pandemia e narradas através de breves textos que foram compartilhados por mensagens de WhatsApp, na página da ADUFC e em perfil do Instagram.

Assim, recebemos e publicamos 74 textos de diferentes atores sociais que, a partir de seus engajamentos políticos, profissionais e afetivos, compartilharam os sentidos de suas vivências e percepções sobre o isolamento social e a pandemia. São textos abundantes em intensidades, indignações e sensibilidades. Narrativas de vida, a mesclar saberes, sentimentos, denúncias, indignações e descobertas. Uma bela e forte amálgama de vivências. Alguns textos foram produzidos coletivamente; portanto, são vozes e palavras múltiplas, cooperativas e afinadas em suas emoções.

Os escritos registrados em Memórias de Quarentena nos interpelam a pensar criticamente, de diferentes ângulos, uma experiência coletiva que, vivida de formas próprias e peculiares, impactou as práticas de sociabilidade no mundo todo, no final desta segunda década do século XXI. O conjunto diversificado de relatos parece formar um caleidoscópio de muitas cores e nuances, para ver, pensar e sentir a pandemia que se instaura e se dissemina entre nós, em meio a profundas apartações sociais e políticas.

Como artesãs e artesãos da vida, os sujeitos das narrativas movimentam fios de diferentes texturas, compondo um grande mural, de força singular. Os escritos de Penha, Rafaela e Ramon, profissionais da saúde, retratam os desafios do cotidiano nas Unidades de Saúde; Cristiana, Aurilene e Caio nos falam de práticas terapêuticas e de autocuidado durante o isolamento social; o cotidiano da convivência familiar foram retratados por Alba e Ângela, Zuleica e Luciana; o sofrimento psíquico e a saúde mental, nos duros circuitos da pandemia, foram temática trabalhada por Cláudia e Gisélia e por Alessandra Xavier; os textos de Padre Luís Sartorel e Pastora Elizabeth mostram caminhos da espiritualidade em tempos de sofrimentos e dores; as desigualdades sociais, nas formas de viver e de acessar os sistemas públicos, foram abordadas por Antonia Rozimar e por Maria Zélia; a arte e os artistas marcaram a cena nos escritos de Andréa Bardawil, Sandra Montenegro, Dilmar Miranda e Caubi, com Suene trazendo a dor, em forma de poesia dramática e intensa; o racismo e suas marcas de exclusão e violência constituem temáticas de denúncia nos textos de Veriana, Margarida Marquês, Marcus Gigio, Caubi, Lia, Jana, Margarida Pimentel e Dilmar; um grupo de militantes e de integrantes dos movimentos sociais focaram a questão ambiental nas palavras de João Alfredo, Jeovah, Moésio, Pedro Medeiros, Pedro Molinas e José Carlos e a questão indígena no relato de Clarissa; a tragédia da Covid e a importância do SUS foi discutida por Eliana Guerra, Fernando Pires e Lúcia Conde; as violações de direitos de crianças e adolescentes, vítimas de duros cenários de injustiças sociais, foram publicizadas nos escritos de Lídia Rodriguês e Andrezza, Margarida, Ângela e Lara, David Araújo, Jéssica, Vanessa e Isabel; Já Lucas, Larissa e Alisson, jovens universitários e moradores da periferia de Fortaleza, relatam como o vírus não é democrático, mas mutante de vivências diferenciadas entre grupos e segmentos sociais; Ingrid Leite e Alessandra Félix alardearam as vozes das mães das periferias, cujo medo da morte de seus filhos é cotidiano e independente da pandemia; a precariedade e as exclusões na educação via trabalho e ensino remoto são bem delineadas nos registros de Camila, Mac, Ana Luz e Zuleide; já as denúncia de violações na educação inclusiva é apresentada no texto de Keila e David; Lídia Valesca circunscreve as tragédias da Covid vivenciadas por moradores de rua; Adriano Caetano manifesta seu protesto militante em defesa da vida e dos corpos LGBTQI+, em tempos de agravamento da intolerância e do reacionarismo; Jacira Serra faz ouvir sua voz de indignação com violências que atingem a população idosa; Irenísia, em seu escrito literário, proclama que os “velhos querem viver”, para além de todas as discriminações e preconceitos acirrados no contexto da Covid-19; Elza Braga traz à público os desmontes da Política de Segurança Alimentar no atual cenário brasileiro, mostrando a importância dessa política no enfrentamento da fome e da pobreza; Michely e Alda, Vanessa, Severina Flor e Carol Bentes trazem à cena desafios e dilemas que perpassam o universo das mulheres, intensificados em tempos de pandemia; em meio às injustiças sociais e apartações que se agravam na pandemia da Covid-19, Ingrid Rabelo, Jean, Lúcia, Patrícia, Suyanne, Diego e Joaquim acendem a esperança, quando partilham a vastidão de ações de solidariedade que foram realizadas, especialmente, nas periferias da cidade. Por fim, recebemos textos de narradores que escolheram retratar seus cotidianos, as mudanças de planos, projetos e jeitos de viver, (re)viver e (con)viver na travessia da pandemia e do isolamento social, como os escritos de Madeira, Ester e Ruth, Mário Felipe, George Paulino, Lara, Leandro, Ana Paula, Antônio David, Isaurora e Fátima, marcados por sensibilidade em abundância.

E, assim, tomamos essa experiência de colecionar as Memórias de Quarentena em formato de palavras escritas por pessoas por quem nutrimos profundo carinho e admiração, como um relicário, um lugar destinado a guardar preciosidades, um cofre de emoções, uma caixa de experiências, que, por terem sido compartilhadas, ganharam eternidade. Agradecemos a cada narradora e a cada narrador que destinaram tempos e sentimentos para essas partilhas, que, na verdade, são pedaços de cada um e cada uma de nós, enunciados por palavras combativas, indignadas e afetuosas.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 74: A CARNE MAIS BARATA DOS SUPERMERCADOS BRASILEIROS CONTINUA SENDO A CARNE NEGRA https://www.adufc.org.br/2020/11/24/memorias-de-quarentena-74-a-carne-mais-barata-dos-supermercados-brasileiros-continua-sendo-a-carne-negra/ Tue, 24 Nov 2020 13:11:55 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=16055 Dilmar Miranda (Professor da UFC)

Dessas coincidências terríveis da história. Revisando um texto meu, justo no dia da Consciência Negra, tomei conhecimento do assassinato trágico de João Alberto Silveira Freitas perpetrado por dois seguranças do Carrefour. Há séculos a carne negra é a mais barata. Muitas páginas foram escritas sobre os horrores dos navios negreiros conhecidos como “tumbeiros”. A legislação lusa sempre burlada regulamentava os navios sobre condições de higiene, ventilação e total de “peças”. Os custos de um cativo, com água e alimentos, eram baixos. Mesmo sendo alta a mortalidade, todos lucravam: comerciantes com o negócio humano e o governo com os impostos pagos pela quantidade de escravos. Quanto maior seu número, maior a renda para os cofres do reino. Na viagem, a mortalidade variava de 10 a 30%, dependendo dos alimentos, água, total de escravos, dimensão do navio, sobretudo do tempo de viagem. Marcados a ferro, confinados nos porões, sujeitos à fome, sede e calor, à promiscuidade, falta de ventilação, sofriam toda sorte de privações. Numa descrição de um navio com 670 cativos, os homens achavam-se empilhados no porão, sempre acorrentados pelo temor de revolta. As grávidas ocupavam a cabine da popa. As crianças, amontoadas “como arenques num barril”, dormiam umas sobre as outras. “Havia sentinas para satisfazer as necessidades, mas como muitos temiam perder seus lugares, aliviavam-se onde estavam, em especial os homens, cruelmente comprimidos um contra os outros”. O relato do médico irlandês R. Walsh testemunha as condições de um navio negreiro que presenciou, quando sua embarcação perseguiu um navio brasileiro, por força de um acordo internacional proibindo o tráfico ao norte do Equador. No mar há 17 dias, com 562 escravos (homens, mulheres e crianças), 55 haviam morrido e lançados ao mar. Todos sentados, entre as pernas uns dos outros, sem poder mudar de posição. Afirma J. Rugendas que eram embarcados cada ano p/ o Brasil cerca de 120 mil negros, raramente chegando de 80 a 90 mil ao destino. Aproveitava-se qualquer espaço, desde que comportasse uma pessoa. “Acrescentemos a essa deplorável situação, o calor ardente do Equador, a fúria das tempestades e alimentação, carne salgada, a falta de água. Às vezes acontece um cadáver ficar vários dias entre os vivos. A falta de água é a causa mais frequente das revoltas de negros; mas, ao menor sinal de sedição, não se distingue ninguém; fazem-sebimpiedosas descargas de fuzil nesse antro atravancado de homens, mulheres e crianças. Acontece que, desvairados pelo desespero, os negros furiosos se atiram contra seus companheiros ou rasgam em pedaços seus próprios membros”. Nus, esquálidos e imundos, os sobreviventes eram encaminhados aos mercados. Novo ciclo de horrores. No Rio, levados ao mercado do Valongo, eram submetidos a um “exame brutal e açoite”, segundo uma viajante inglesa. São exibidos para serem examinados, apalpados por compradores, após o regime de “engorda”: pirão de mandioca, raros pedaços de carne salgada, água, batata, laranjas para curar o escorbuto, além de nova demão de óleo de palma, já passado na África. “O açoite era para mostrar vivacidade no pular, gritar e chorar. Os horrores são tantos que os olhos traem o desejo de serem logo comprados, e quando o são, demonstram alegria”. A escravidão foi uma prática generalizada, sem qualquer possibilidade de refúgio em alguma parte do país, salvo nos quilombos, diferente do que ocorreu com o norte dos Estados Unidos, percebido pelos cativos de lá como a terra da promissão e liberdade, cantados nos worksongs e spirituals da música afro-norte-americana. Aqui a escravidão era vista como fato natural, sancionada pelo poder espiritual e temporal. Apenas quando se transpunha o limiar da crueldade, recomendava-se moderação. Os ideais do Iluminismo e os ímpetos libertários da Revolução Francesa nos chegaram débeis demais para contestá-la. A escravidão, aceita como algo banal, era raramente referida em termos institucionais. A constituição de 1824 reza um dispositivo que define como cidadãos, “os que no Brasil tiverem nascido, quer sejam ingênuos (filhos de escravos) ou libertos”. Este silêncio revelava um certo pudor da consciência cristã que procurava recalcar uma realidade perversa em si e cruel nas suas formas de repressão. As legislações lusa e brasileira sempre protegeram a propriedade dos escravos. Possuí-los era um dos maiores privilégios. A justiça fazia vista grossa aos abusos infringidos contra os cativos, mas era terrivelmente cruel quando eles iam contra um senhor ou sua família, caso ainda não havia sido praticado alguma vingança a mando do senhor. A própria lei extintora do tráfico era desrespeitada. Mais de meio milhão entrados ilegalmente, foram mantidos em cativeiro, com a conivência de um poder que usava de todos os subterfúgios para proteger os senhores, como o retardo de processos, exigindo provas da origem africana dos negros, data de nascimento e de entrada no Brasil. Os africanos livres salvos dos “navios negreiros e emancipados, ao invés de recambiados à África, eram colocados sob a ‘proteção’ do governo e dados como mortos através de certidões falsas obtidas por seus comerciantes ou pelos órgãos oficiais do próprio governo, que podia assim explorá-los à vontade, já que eles não mais existiam”. Qualquer pessoa de pele negra ou mestiça, com alguma dúvida sobre sua situação civil, era um escravo em potencial, espécie de propriedade não reclamada pelo seu dono, como qualquer animal abandonado, podendo ir a leilão depois dos editais. Mais do que necessidade, ter escravos dava prestígio, pois viver do seu próprio trabalho era uma ignomínia. Havia ainda os escravos “ao ganho”, um contingente negro a trabalhar por conta do seu senhor: pedreiros, vendedores, quitandeiras, prestadoras de serviço, carpinteiros, sapateiros, prostitutas, músicos de “banda de barbeiros”. Esmoleres cegos ou aleijados podiam render ao dono uma boa diária. No Rio, senhores de escravos chegavam a possuir até trezentos negros “ao ganho”. Paga a diária estipulada pelo senhor, caso algo sobrasse, o cativo guardava para sua alforria. Até aqui, um terrível fragmento de nossa história. Desgraçadamente o estigma da vida humana sem valor, da “peça negra” barata continua. Indignarmos é pouco, muito pouco. É PRECISO DAR UM BASTA!!!

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 73: DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA https://www.adufc.org.br/2020/11/24/memorias-de-quarentena-73-dia-da-consciencia-negra/ Tue, 24 Nov 2020 13:10:56 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=16052 Margarida Maria Pimentel de Souza (Professora do Departamento de Letras Libras e Estudos Surdos – Delles/CH/UFC)

“Dia da Consciência Negra é bom porque é dia especial de luta” – disse alguém.

Indago: Dia especial de luta?

A luta de negras e negros é diária! Luta-se por respeito, por lugar, por vez, por voz, por dignidade, por VIDA. Independentemente de diplomas, a cor da pele parece ser um convite à população pseudobranca a destratar em maior ou menor grau uma pessoa negra. Aliás, o diploma desta, certamente, se deu/dá à custa de mais e mais lutas, pois privilégio destina-se à pessoa dita branca.

Se um homem negro desce de um carrão, logo o imaginário toma conta: “deve ser jogador de futebol”; “talvez seja o manobrista”. E se ele está próximo a um carrão? Não duvide, alguém poderá chamar a polícia. E se for algum policial que veja, raramente se evitará alguma cena repugnante.
Brasil, pobre país colonizado! Precisaria de um “dia especial” no calendário se não fosse, lamentavelmente, tão racista? Dia para refletir? Dia de propagar a cultura negra? Será “Especial”, quando, nesse dia, empregarem mais negros; promoverem a bons cargos e salários; não houver o invisível (mas, vivenciado) apartheid; quando houver equidade e respeito de fato!

Vive-se uma cultura de apagamento da negritude, em tentativas de “embranquecimento”, quando:
(a) uma mulher negra, independente de poder aquisitivo, entra em um salão de “beleza” e se insiste na tortura de alisamento porque “cabelo liso é cabelo bom”;
(b) se acha que chamar uma mulher de “mulata” é menos ruim do que reconhecer o seu valor por ser “negra”;
(c) quando nessa mesma perspectiva se diz “aquela moreninha” / “aquele moreninho”;
(d) quando negr@s escolhem ou tratam melhor uma pessoa (dita) branca, menosprezando, mesmo inconscientemente, seus pares negros; e assim por diante. Enumeraria por horas, as atitudes provenientes do racismo estrutural do/no Brasil.

No linguajar cotidiano, várias são as expressões racistas proferidas: “inveja branca”; “magia negra”; “ovelha negra”; “mercado negro”; “lista negra”; “a coisa tá preta”; “denegrir”; “deu de pau num prato de comida”; “doméstica”; “cor do pecado”; “meia tigela”; “esclarecer”; entre outras. Teme-se o “gato preto” e evita-se a “galinha preta”.

Não fosse o Brasil um país estruturalmente racista, não precisaria do “Dia da Consciência Negra”; assim como não seria tão comum a violência e o assassinato de negros, executados, inclusive, por funcionários públicos (policiais), simplesmente pelas suspeitas, por vezes, equivocadas, em virtude da abundância de melanina na pele das vítimas.

Para coroar esse dia especial, nesse 2020, pleno de desafios, medos e tristezas em virtude da pandemia do coronavírus, o noticiário divulga o assassinato de um negro, espancado por seguranças da loja Carrefour até a morte, à vista de pessoas “expectadoras”, que apenas filmaram com o celular. Talvez usar o celular para ligar à polícia não surtisse efeito. Infelizmente, diferente do movimento social estadunidense, a mídia já anunciou que a vítima socou um dos seguranças, antes de tudo começar; isto é, no Brasil, a vítima termina sendo a “culpada”.

Enfim, trago a pergunta ainda sem resposta e sem a punição dos culpados: quem encomendou a morte de Marielle Franco? Estaria impune se essa mulher, jovem, negra, livre, mãe, letrada, cidadã, politizada, exemplo de Ser… fosse “branca”? Seu(s) mandante(s) estaria(m) livre(s) se fosse(m) “negro(s)”?

“Consciência Negra” torna-se um atributo. É fortaleza. É “com-Ciência”, como evoca o legado do grande mestre Milton Santos.

Negro produz Ciência. Dê-lhe oportunidade. Dá-nos espaço digno!

Como mulher, negra, professora universitária, originária da classe trabalhadora, cuja trajetória de luta cotidiana recusou e recusa a negatividade da “destinação” de “Gabriela” – “Eu nasci assim, eu cresci assim, sou mesmo assim, vou ser sempre assim” –, uso o meu lugar de fala e potência para dizer que a “ESPERANÇA” de dias melhores não cabe em meu dicionário, porque o dia ideal é o HOJE; porque, há séculos, se ESPERA por dignidade, fraternidade, equidade, liberdade; e porque o sangue fervilha no AGORA.

Urge A-COR-DAR, Brasil! Urge dar-a-cor!
Avante, Brasil negro, Brasil indígena!
Brasil multicolorido e multilíngue, Avante!

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 72: O VÍRUS QUE NOS TIROU A PAZ E O RISO https://www.adufc.org.br/2020/11/24/memorias-de-quarentena-72-o-virus-que-nos-tirou-a-paz-e-o-riso/ Tue, 24 Nov 2020 13:08:48 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=16049 Fátima Azevêdo (Médica Geneticista; Profa. da FAMED-UFC; Artista Plástica e Poeta)

Estar acordada de madrugada, para mim não é normal. Gosto quando durmo a noite toda. Porém, há dias que me acordo do nada ou sou acordada por algum barulho, algum sonho, pesadelo ou alguma preocupação que me martela o juízo. Descansar corpo, mente e espírito, são questões fundamentais para se viver com saúde. Ultimamente, não está fácil conseguir essa façanha.

Essa pandemia trouxe aflições de toda ordem e tamanho para todo tipo de ser humano. Do mais letrado ao que menos acesso teve ao estudo, do mais jovem ao mais velho, do que tem mais melanina na pele ao que tem menos, do mais saudável ao que tem algum tipo de doença, desde o comandante aos comandados. O vírus foi e continua sendo democrático. Democrático na forma de contágio, mas a forma de acesso ao tratamento não é igual pra todos. Pelo contrário: revela as imensas desigualdades com que nos deparamos neste País.

Digo que o vírus não tem preconceito, quando chega e dá rasteira tanto nos que se hospedam no hotel Hilton de Paris, quanto nos que se hospedam nas calçadas de Los Angeles ou São Paulo. Ele derruba e faz virar pó os que moram em casebres ou mansões. O vírus está aqui e ainda continua a maltratar a humanidade, mas pouca gente tem aprendido as lições que essa pandemia tem se esforçado a nos dar a todos. Eu não entendo a falta de escuta a esse vírus. Ele veio com várias capas, uma delas é a de professor, de educador, eu diria até de um professor com ares de crueldade e implacável. Que não perdoa distração ou pequenas falhas de seus alunos. Um professor à moda antiga. Eu diria, até, um professor de séculos passados. Mas como o mundo está de cabeça para baixo, quem escuta professor?! Ninguém ou quase ninguém. E essa é uma das razões pelas quais o tal vírus devastador continua sua maratona incansável.

Quase ninguém segue as normas de prevenção. Os administradores públicos são completamente hipócritas. Proíbem algumas coisas e fazem vista grossa para outras tantas. Haja vista as escolas paradas e os ônibus lotados. As reuniões presenciais suspensas e os comícios e passeatas eleitoreiras se repetindo aqui e ali, de norte a sul e de leste a oeste. Vacinas sendo testadas com uma velocidade nunca vista e resultados ainda inconclusivos. Os interesses mercantilistas, por trás dessas respeitadas e necessárias pesquisas, deixam o meu lado de médica em estado de alerta. Sempre atenta e cuidadosa para os resultados das próximas fases de testes, visto que os resultados publicados nos trabalhos, referem-se apenas à fase 1.

Para equilibrar tantas preocupações e constatações de coisas óbvias dessa pandemia, que precisavam de ações corajosas e planejamento efetivo em uma nação de dimensões continentais como o Brasil, uso a minha porção de artista e de poeta, para aliviar as tensões diárias e colorir meus dias. Continuo a produzir aquarelas, escrever crônicas e poesias, dar minhas aulas na UFC e administrar os imprevistos que fazem parte da vida de qualquer pessoa.

Essa pandemia me transformou em um ser mais resiliente, mais cuidadoso com meu entorno, mais atento à vida do que normalmente eu já era e mais grato do que sempre fui. Valorizo, cada vez mais, cada segundo de vida, cada movimento de inspiração e expiração. Cada grão de arroz e feijão que coloco em meu prato, com tempero ou sem tempero, é visto com as lentes de aumento da gratidão, ao mesmo tempo que o coração se aperta quando lembro dos irmãos que já tinham pouco e a pandemia devastou suas vidas, lhes tirando o pouco que tinham.

Peço, com todas as forças do meu coração, que o ser humano aprenda as lições que essa pandemia vem oferecendo e que a espécie humana volte a se comportar como seres humanos que somos, feitos à imagem e semelhança de nosso Criador. Não somos donos de nada. Estamos aqui de passagem. Precisamos urgentemente aprender a cuidar da nossa casa, a mãe terra, e cuidar uns dos outros. Precisamos retirar as vendas dos nossos olhos e colocar as máscaras nos nossos rostos.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 71: PANDEMIA, PANDEMÔNIO E SONS AO REDOR https://www.adufc.org.br/2020/11/24/memorias-de-quarentena-71-pandemia-pandemonio-e-sons-ao-redor/ Tue, 24 Nov 2020 13:06:56 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=16046 Isaurora Martins (Professora da UEVA)

No início, tudo se fez silêncio na cidade. Com o fluxo de carros e pessoas diminuídos nas ruas, devido à imposição do confinamento e do distanciamento social, outros sons passaram a preencher os dias e os já existentes tornaram-se mais nítidos.  O tempo da pandemia, portanto, passou a ser também um tempo de escutas. Escuta do silêncio da cidade, escuta de velhos discos que há tempos eu não tirava das gavetas, escuta dos pássaros que habitam o entorno do meu pedaço de chão e lembram que, numa Fortaleza tão maltratada pelo excesso de concreto e pelo constante corte de árvores, ainda existe uma natureza que pulsa. A vida renova-se todos os dias nas fofocas dos bem-te-vis, na algazarra dos periquitos da Praça da Imprensa, no canto de tantos outros pássaros, dos quais não sei o nome, que habitam as árvores que por aqui ainda resistem, no rasgo dos dois carcarás que caçam os ninhos dos pássaros enquanto observo impotente pelas janelas. Concorrendo com os sons da natureza, tornou-se constante nos meses de abril e maio o som das ambulâncias trazendo o desespero e o medo por nos sabermos no pico da pandemia com hospitais lotados e grande número de óbitos. Junto com a pandemia instalou-se também o pandemônio político causado por um governo negacionista que desdenha dos que perderam a vida e desrespeita a dor dos que perderam seus entes queridos. Pela TV entrava o som do choro e do desespero desses últimos numa constante espetacularização da dor e da morte que os telejornais promovem o dia inteiro todos os dias. À contagem dos mortos pela Covid19, somassem-se as mortes violentas, sobretudo de jovens, que cresceram nas periferias da cidade. Sinal de que os demais problemas sociais que assolam nosso país não abriram espaço para a pandemia passar. Nesse contexto, no primeiro mês, o som das panelas da indignação, encheram as noites de Fortaleza a cada pronunciamento presidencial. Misturado ao som das panelas, os gritos de “Fora Bolsonaro!” e a voz solitária de um vizinho, que da varanda gritava “Mito! Mito!” e “Fora comunistas!”, a me dizer que ele não vive no mesmo país que eu. O passar dos dias e a imposição do fechamento total em maio, o chamado lockdown, foi trazendo outros sons. O das lives musicais, quando artistas impedidos de frequentarem os bailes e bares da vida fazendo resolveram nos presentear com shows virtuais alegrando os corações e salvando a quarentena de muita gente. “Todo artista tem de ir aonde o povo está”, como fala a canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, e eles vieram até as nossas casas por meios diversos. A sambista carioca Teresa Cristina tornou-se a “rainha das lives” fazendo transmissões todas as noites via Instagram para cantar, receber músicos e políticos e comentar os acontecimentos do pandemônio político. Tornou-se voz de resistência e denúncia e incomodou tanto a ponto de quererem silenciá-la. Na minha vizinhança, no período do lockdown, o músico Waldonys enchia o fim das tardes de domingo de música, tocando seu acordeon do alto de um prédio. O som das vozes dos amigos passou a entrar apenas pelo celular ou pelo computador em encontros virtuais tão necessários para lembrar que, apesar de tudo, os afetos não podem ser suspensos. Do mesmo modo, os colegas de trabalho passaram a ser ouvidos apenas virtualmente em reuniões de trabalho e lives acadêmicas. Os sons das homenagens aos que se foram (amigos, parentes e parentes de amigos) também passaram a entrar na casa por meio do computador em missas e cultos virtuais. Outro som que se tornou constante foi o dos carros de som parados na porta dos prédios ou das casas homenageando os aniversariantes com músicas, mensagens e fogos de artifício. Os fogos de artifício que explodiam altas horas da noite no período do lockdown chamavam-se a atenção. Soube depois que eram um sinal de que alguma facção estava conquistando mais um território da cidade. Buzinaços e carreatas também se fizeram ouvir nos primeiros meses. Esses eram os sons dos inconsequentes que bradavam pela reabertura do comércio e das escolas, ignorando os riscos. A luta antirracista se acirrou nos dias de confinamento e os gritos de “vidas negras importam!” ecoaram nas TVs e redes sociais, mostrando a indignação mundial pelo assassinato de George Floyd pelas mãos de um policial branco nos Estados Unidos. No Brasil, esses gritos precisam ecoar todos os dias, pois o que não nos faltam são vidas negras e periféricas sendo ceifadas por policiais. Em maio gritamos por João Pedro (14 anos), em junho por Guilherme (15 anos), para citar os casos mais visíveis, e também por Miguel (5 anos) que não foi morto pela polícia, mas pela negligência da patroa de sua mãe. Em julho gritamos por Mizael (13 anos), assassinado por policiais em sua própria casa. No dia 01 de julho, às 11h, o som de motos buzinando invadiu as janelas do apartamento, corri para olhar e vi o laranja e o vermelho das mochilas dos aplicativos de entrega. Eram os entregadores, trabalhadores precarizados, protestando contra medidas que precarizaram ainda mais essa forma de escravidão moderna travestida de empreendedorismo. Gritavam a palavra de ordem “Sem Exploração!!”, como se já não fossem suficientemente explorados. Com a reabertura, os sons da cidade retornaram abafando os sons da natureza. Já não ouço mais tantas ambulâncias, mas sei que o vírus ainda nos ameaça. Agosto chegou trazendo os ventos fortes, que na minha casa uivam e assoviam. Junto com os ventos, aumentou o crepitar do fogo queimando a Amazônia e o Pantanal. Gritamos virtualmente por nossa natureza enquanto o governo passa sua boiada. Em tempos mais recentes ouvi protestos de donos de escolas e professores reivindicando a reabertura dos estabelecimentos de ensino e até de músicos de banda de forró pedindo a liberação dos shows para que possam trabalhar. Outubro chegou e a população já se comporta como se a pandemia tivesse ido embora. Ouço sons das festas dos vizinhos, dos bares próximos e das campanhas políticas que invadiram as ruas da cidade desde o início de outubro. Além dos sons ao redor, a memória desses tempos vai ser preenchida também pelos sons interiores: da angústia, por me saber privilegiada num momento em que muitos não têm sequer um teto para se proteger do mal que nos ameaça; do medo; da incerteza; da saudade do que fomos (que faz uma barulheira danada) e da esperança, que, entre a pandemia e o pandemônio, é como um pássaro batendo asas aprisionado numa gaiola.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 70: A IMPORTÂNCIA DO SUS NO CONTEXTO DA PANDEMIA https://www.adufc.org.br/2020/11/03/memorias-de-quarentena-70-o-sus-e-a-pandemia-de-covid-19-ou-a-importancia-do-sus-no-contexto-da-pandemia/ Tue, 03 Nov 2020 14:11:25 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=15955 Lucia Conde de Oliveira (Assistente Social, Professora da UECE)

O Brasil tem o maior sistema público universal do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS). Ele foi fruto da luta do Movimento da Reforma Sanitária brasileira, que aprovou em 1986, na 8ª Conferência Nacional de Saúde, o texto que fundamentou o capítulo da saúde na Constituição Federal de 1988. A luta pela democratização da sociedade uniu amplos segmentos da população em torno das liberdades e pelo resgate da grande dívida social para com a maioria da população brasileira. Estava na pauta a garantia de direitos sociais, entre estes, o direito à saúde pública universal e de qualidade, que promovesse saúde, prevenisse riscos e agravos, além da cura de doenças, reabilitação e cuidados paliativos. Um sistema público de saúde para todos exigia uma reforma social ampla, que garantisse financiamento do SUS e redução das desigualdades por meio de políticas sociais e econômicas.

Contudo, o SUS nasce em um contexto bastante adverso, em plena crise do capital e do Estado de bem-estar social. Os princípios do SUS de universalidade, equidade, integralidade e participação da comunidade colidem com a lógica neoliberal, que estava em curso no País e no Mundo. Mesmo assim, o SUS segue sendo implantado, mas com grandes restrições ao financiamento. Isso fez com que segmentos importantes da classe trabalhadora se retirassem do sistema público e passassem a incluir, em suas pautas sindicais, a reivindicação por planos privados de saúde. Assim, faltam sujeitos políticos na luta pela consolidação do Sistema e de reorientação do modelo de atenção. A grande mídia, a serviço do capital, especialmente o financeiro, passa a promover um sistemático ataque aos serviços públicos, incluindo o SUS, para abrir caminhos para as privatizações. As empresas de seguros e planos privados de saúde não têm interesse que o SUS funcione. E ainda contam com o apoio de parlamentares financiados por esses grupos. Mesmo assim, entre avanços e retrocessos, o SUS seguiu se ampliando e atendendo mais de 70% da população brasileira. Mas, a partir de 2016, com o golpe parlamentar midiático com o apoio do judiciário, várias medidas vêm sendo aprovadas para desconstruir cada vez mais o SUS: o aumento da desvinculação das receitas da União, que passou de 20 para 30%; a Emenda Constitucional 95/2016, que congelou os gastos com as políticas sociais por 20 anos; a contrarreforma psiquiátrica; a flexibilização da Estratégia Saúde da Família, entre outras.

Por outro lado, com a emergência da pandemia da covid-19, o SUS passa a ser essencial, para garantir a vida de milhões de brasileiros. O Brasil e o Mundo se preparam para enfrentar a pandemia. Necessidade de leitos de UTI, respiradores, equipamentos de proteção individual, profissionais capacitados, que foram sendo treinados em serviço para encontrar as melhores estratégias para prestar assistência aos doentes. Medidas de isolamento social e de prevenção foram sendo aprovadas. Todavia, no Brasil contamos com vários agravantes: o negacionismo e obscurantismo do Governo Federal; a falta de articulação entre as esferas de governo, no sentido de estabelecer uma estratégia de ação conjunta; a grande desigualdade social, todos eles contribuíram para o aumento dos casos e de morte por covid-19. Apresentamos o segundo lugar em número mortes no mundo, só perdendo para os Estados Unidos, que não possuem um sistema universal de saúde. Nesse momento, a mídia dá uma trégua na desqualificação do SUS e seus opositores são obrigados a reconhecer sua necessidade. Durante os meses mais críticos da pandemia, diariamente, assistíamos entrevistas com ministros da saúde, secretários, cientistas, jornalistas a noticiarem informações sobre a pandemia e o SUS e exibindo sua logomarca. Para nós, que defendemos o SUS, vivíamos a dor e a emoção de ver o SUS se mostrar necessário. Foram destinados mais recursos para a saúde, mas 30% desses recursos não foram liberados, e parte liberada via emendas parlamentares, para obtenção de apoio para o governo.

Esse cenário mobilizou vários sujeitos políticos individuais e coletivos para unir forças em defesa do SUS. No Ceará, houve a rearticulação da Frente Cearense em Defesa do SUS contra a Privatização da Saúde, unindo-se à Frente Nacional contra a Privatização da Saúde, cerrando fileiras no sentido de ampliar o debate e a consciência sanitária para a defesa do SUS. Ao mesmo tempo em que precisávamos nos unir em torno da defesa da vida e do SUS, não podíamos fazer mobilizações para evitar o avanço da doença. Mesmo assim, algumas intervenções foram sendo produzidas para dar visibilidade aos problemas vividos pelo SUS: baixo financiamento; insuficiente rede de serviços e alta concentração nos grandes centros urbanos; longas filas de espera por consultas e exames especializados; profissionais com vínculos precários; avanços nos processos de privatizações, via organizações sociais. Estampávamos como pauta prioritária a revogação imediata da EC 95. O projeto de Lei Orçamentária para 2021 prevê uma perda de mais de 35 bilhões para a saúde. Nesse período, em menos de dois meses, dois ministros da saúde foram exonerados por não seguir às orientações do presidente da república. Novo Ministro da Saúde, um general, interventor militar, ficou por quatro meses como interino e depois efetivado, levou para a pasta um contingente de militares para os cargos no ministério. Muitas decisões tomadas à frente da pasta por amadorismo ou intencionalidade em esconder a realidade dos fatos, levaram os órgãos de imprensa a se reunirem para produzir informações epidemiológicas mais confiáveis sobre a covid-19.

Há uma corrida para a produção de uma vacina contra o Coronavírus. Mas há muitas incertezas: quando teremos a vacina, qual sua eficácia, quem terá acesso? E na Europa já se assiste uma nova onda de aumento dos casos e morte por covid-19. Na medida em que as condições sanitárias foram se acalmando, se tenta apagar a visibilidade do SUS e dar continuidade à estratégia de sua desconstrução. Nesse momento, a pauta da reforma tributária e a administrativa, se aprovadas, terão uma repercussão ainda mais deletéria para o Sistema. Tornando o SUS mais vulnerável às investidas do capital, que vê no setor saúde um grande nicho para acumulação de capital.

Vamos defender o SUS! Defender o SUS é defender a vida de milhões de brasileiros!

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 69: SOBERANIA, SEGURANÇA ALIMENTAR E NUTRICIONAL NO CENÁRIO DAS CRISES https://www.adufc.org.br/2020/11/03/memorias-de-quarentena-69-soberania-seguranca-alimentar-e-nutricional-no-cenario-das-crises/ Tue, 03 Nov 2020 14:08:26 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=15952 Elza Franco Braga (socióloga, profª aposentada da UFC, ex-presidente do Consea Estadual, ex-conselheira do Consea Nacional e integrante do Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (FCSSAN) e Fórum Cearense de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional)

Dados do Relatório (2019), da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) demonstram que a subnutrição no mundo voltou a crescer, após algumas décadas em declínio. Atualmente, mais de 820 milhões de pessoas não têm acesso à alimentação digna e adequada. No Brasil, mais de 52 milhões de pessoas vivem com renda mensal de até R$ 420,00 e 13,5 milhões sobrevivem com até R$ 145,00 mensais. Segundo a FAO, menos de 5,0% de população brasileira vive, hoje, em situação de extrema pobreza. Ou seja, o país retorna ao Mapa da Fome, do qual havia saído em 2014.

Na dinâmica conjuntural no cenário do país, vale destacar: desaceleração da atividade econômica, aumento do desemprego, precarização do trabalho; reajuste do salário mínimo abaixo da inflação e extinção ou redução gradativa das políticas sociais. Tal redução vem se acentuando, sobretudo, após a aprovação da Emenda Constitucional (EC) 95/2016, que estabeleceu o chamado “teto de gastos públicos” por 20 anos, afrontando princípios da Constituição de 1988, os quais preconizam a intervenção do Estado para assegurar os direitos, diante da extrema desigualdade social.

A partir de 2016, com o golpe jurídico, parlamentar e midiático que destituiu Dilma Rousseff do cargo de presidenta da República, constatam-se inúmeros retrocessos que tiram do Estado brasileiro a capacidade de exercer sua função de proteção social no combate à fome e garantir sistemas sustentáveis de produção e consumo de alimentos nutricionalmente adequados. As políticas voltadas para a agricultura familiar foram desmontadas.

A extinção do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (CONSEA) pelo governo Bolsonaro, no seu 1º dia de mandato, através de uma Medida Provisória, assinala a intensificação do desmonte das políticas sociais. Criado em 2003 e regulamentado através da Lei nº 11.346, de 15 de setembro de 2006, o CONSEA tinha como objetivo assessorar a Presidência da República. Integrava o Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Sisan), como parte de uma estrutura intersetorial responsável pela implementação da Política Nacional de Segurança Alimentar. A agenda do CONSEA envolvia, dentre outros, os seguintes temas: combate à fome; agricultura familiar; controle de agrotóxicos; merenda escolar. São temáticas que visavam assegurar o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA). O CONSEA era vinculado ao Ministério de Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS).

Incontáveis organizações e entidades da sociedade civil reagiram à extinção do CONSEA e, apesar de alguns recuos do Executivo, ela foi consumada na sessão no Congresso Nacional, em 24 de setembro de 2019.

As reações contrárias foram veiculadas, sobretudo, através da mídia alternativa e das redes sociais. Assim, manifestavam-se entidades e organizações brasileiras e do exterior, expressando indignação e reconhecendo o valoroso trabalho do CONSEA. O Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional teve um papel de destaque, mobilizando os conselheiros e entidades.

Dos muitos documentos e notas de apoio, destacamos alguns trechos: “o formato de participação social adotado pelo Brasil na área de segurança alimentar e nutricional tem sido exemplo para inúmeros países” (FBSSAN); “(…) com a extinção do CONSEA fica automaticamente fechado o principal canal de diálogo, compartilhamento de experiências e vocalização de demandas concretas relacionadas ao tema” (Associação Brasileira de Saúde Coletiva); “A arbitrária decisão põe em sério risco o trabalho e os significativos avanços que vinham sendo construídos” (Ações Internacionais de Combate à Fome CGFOME); “(…) extinguir o CONSEA é condenar os mais pobres, sobretudo do Semiárido, da região Norte e das periferias das cidades, à miséria e à fome” (ASA); “É no CONSEA que vem ocorrendo de maneira legítima e institucional o diálogo entre a sociedade civil e governo para a formulação de políticas públicas para a garantia de uma alimentação saudável para toda a população” (FIAN-Organização pelo Direito Humano à Alimentação e à Nutrição Adequadas).

Em meio à gravíssima pandemia da Covid-19, e sem que se possa visualizar seu fim, a crise social e política se aprofundam, diante da incapacidade do governo de dialogar com os setores sociais e de desenvolver ações articuladas e estrategicamente esboçadas num plano de desenvolvimento com metas de curto e médio prazos.

O governo federal tem agido deliberadamente, e de forma avassaladora, em direção à destruição. A passos largos, destrói o meio ambiente; incentiva a invasão de territórios indígenas e o ataque ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST); autoriza a liberação de agrotóxicos, chegando a 474, somente em 2019. Recentemente (setembro/2020), envidou esforços, através do Ministério da Agricultura e Abastecimento (MAPA) para alterar o Guia Alimentar, uma diretriz oficial do governo brasileiro, publicado pelo Ministério da Saúde, com o objetivo de orientar as pessoas para uma alimentação saudável. Para tanto, utilizou argumentos falaciosos, visando atender às pressões e interesses de setores da indústria de alimentos, negando evidências científicas sobre os danos à saúde, causados pelo aumento do consumo de alimentos ultraprocessados e, também, os impactos ambientais que o consumo excessivo de carnes acarreta.

A tentativa de modificar o citado Guia foi barrada, graças a mobilizações da sociedade civil, em âmbito nacional, somadas a um Memorando assinado por cientistas de universidades dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, África do Sul e de outros países, enviado para o Ministério da Agricultura.

Portanto, é necessário que se intensifiquem os processos de mobilização e a ampla discussão das temáticas previstas para a 6ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar, que não aconteceu. Diante disso, o FBSSAN, em reunião em agosto de 2019, deliberou realizar a 1ª Conferência Nacional, Autônoma, Democrática e Popular em defesa da SSAN, definida naquela data para agosto de 2020, no Maranhão.

No entanto, com a pandemia, a comissão organizadora da referida Conferência publicou, em 24/03/2020, o documento Recomendações sobre o direito humano à alimentação no contexto da Covid-19, assinado por mais de 150 instituições. Em face da impossibilidade de realizar a Conferência Popular nos moldes previstos, deliberou-se por uma “conferência contínua, como processo ativo e permanente de participação social”. Neste sentido, várias ações e atividades, preponderantemente online, estão em curso, congregando Conseas municipais e estaduais, além de movimentos e organizações sociais, fortalecendo o processo organizativo e desenhando alternativas e saídas cuja centralidade é a vida e a dignidade humana.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 68: O MUNDO À REVELIA https://www.adufc.org.br/2020/10/22/memorias-de-quarentena-68-o-mundo-a-revelia/ Thu, 22 Oct 2020 19:06:25 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=15949 Leandro Proença (Professor da UNILAB).

“… Mundo à revelia? Mas, Riobaldo, desse jeito mesmo é que o mundo sempre esteve…” João Guimarães Rosa, Grande Sertão: veredas.

Memórias parecem ser muito pouca coisa pra combater a barbárie. Todavia, são as memórias que preservam o afeto das coisas que vivemos; o que não é lembrado, é como se não tivesse existido. E guardar memórias também é um campo de disputa. Uma muito feliz citação do Kundera, d’O livro do riso e do esquecimento, formula a ideia de que a luta “contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento”. Contra quais esquecimentos, porém? Ausências e esquecimentos costumam ser bem seletivos…

“Ah, lembra dele? Tá internado; covid. Bem grave seu estado”. Encerrou a ligação. Me lembro bem dele, apesar de há muito que não o vejo, ou mesmo saber notícias suas. De repente, alguém que passou tanto tempo alheio aos meus pensamentos, tornou-se o centro de urgentes preocupações. No caso do pior, com quatro filhos pra criar, sua esposa sozinha enfrentaria uma condição bastante comum a milhões de mulheres nesse país. Essa normalização, contudo, seria nada diante da sua dor e das suas dificuldades.

Eu tinha prometido a ele que voltaria, com cachaça. Mas ele não botou muita fé. Ainda não sei seu nome; mas sempre levo muito a sério minhas promessas. Voltei, com a cachaça. Fiquei um tempo ali conversando com ele, a metro e meio de distância. Ele não tinha álcool gel pra fazer a assepsia da garrafa, mas o álcool limparia por dentro – o que era bem melhor, ele me garantiu. Aqui, nunca faz frio: lembro-me de ter dito isso várias vezes para pessoas que do sul e do sudeste me perguntaram variedades de coisas sobre a minha vida numa região diferente. Foi estranho ouvir dele que a cachaça ajudaria a encarar melhor o frio daquela noite. Sob um dossel improvisado na copa de uma mangueira, podem ser frias as noites. Ele não usava máscara.

Ela estava se mantendo em isolamento bastante a sério. Já eram quase quatro meses sem pisar nas ruas, e ela gostava tanto das ruas. Gostava de gente, e não ter reais contatos era a parte que mais doía. Mas aquilo haveria de passar, ela dizia a si mesma e às pessoas com quem mantinha contatos virtuais, e logo poderia fazer as coisas todas que gostava tanto. Achou bastante estranho quando tocou o interfone. Já tinha avisado que não receberia ninguém. O porteiro avisou que o rapaz não estava muito bem, que talvez precisasse de ajuda. Ela olhou pela janela, e reconheceu o colega. Autorizou que subisse. Ele, que de fato não estava bem, dizia que não aguentava mais tanto tempo de isolamento, sem as intimidades que um homem precisa tanto. Ela não consentiu. Porque podia, ela ficou em casa, e conseguiu ajudar solidariamente na proteção coletiva contra a disseminação do vírus. O mal a encontrou em casa.

Vi sua foto nos stories. Estava na praia, era domingo. No dia seguinte, jornais estampavam escandalosas fotos da falta de responsabilidade das praias lotadas. Poderia ter mandado uma mensagem reprovando sua ida à praia, a foto sem máscara. Não o fiz. Acompanho suas postagens. Formado no ensino superior contra todas as possibilidades, trabalhando de motoboy confirmando várias previsões. Ele me procurou há algumas semanas: “professor” nunca consegue me chamar de outra forma. “Professor, a polícia matou meu amigo. Ele queria fazer o isolamento, pra cuidar da mãe dele; mas precisava trabalhar, pra cuidar da mãe dele, professor. Ele fez o teste do covid, que ele achava que ia ser bom na empresa, provar que tava limpo. Ele tava limpo, professor. Ele tava indo pra casa, falar pra mãe dele que tinha conseguido o emprego”.

Há muitas razões pra odiar essa pandemia. O desafio de não morrer, porém, pra algumas pessoas, vem de muito antes. Ao expor as veias abertas de um mundo que está existindo à revelia, importa odiar, e combater, todos os esforços para manter firmes suas cruéis estruturas, as mesmas que ajudam a pandemia a matar mais.

Liguei para perguntar sobre sua tia, a que gosta de carnaval. “Cara, nem te conto. A tia mandou avisar geral que não quer ninguém indo muito na casa dela, que já tá velha e é grupo de risco. Só que é o seguinte. Ela tinha começado a namorar antes da pandemia, e chamou o tal namorado pra ficar lá com ela enquanto durasse tudo isso. Ela até comentou que tá se sentindo mais jovem”.

Contradições de contradições. A quarentena não facilita, e parece interminável. Essa coisa toda ainda vai demorar bastante. Enquanto se espera, é preciso viver. Resistir à pandemia, lutar contra a barbárie. É preciso guardar bem as memórias; cuidar dos afetos.

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 67: ESTUDO REMOTO? DE QUE JEITO? HÁ PROVEITO? https://www.adufc.org.br/2020/10/19/memorias-de-quarentena-67-estudo-remoto-de-que-jeito-ha-proveito/ Mon, 19 Oct 2020 23:02:48 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=15946 Severina Flor (Pseudônimo de Estudante da UFC)

De repente, sem nenhum preparo, os índices da pandemia em alta, a reitoria da Universidade anuncia o retorno às aulas, de modo remoto ou híbrido. A professora nos incentiva a escrever sobre nossas condições e como estamos passando. Respondo que são as piores condições possíveis!

Para começar, eu tenho duas filhas, uma de 7 e outra de 3 anos de idade. Elas precisam de supervisão e orientação para as atividades remotas da escola em que estudam. Tenho que estar ligada na agenda e assistir às aulas com elas (caso contrário, elas não prestam atenção, pois são crianças e o pensamento delas é voltado, na sua grande maioria, para brincadeiras). Após assistirmos, é necessário que eu lhes dê aula sobre o mesmo conteúdo das vídeo-aulas, a fim de sanar as dúvidas e ensinar as tarefas. Estou constantemente fazendo comida, higienizando a casa, cuidando de tudo e de todos. Além de tudo o que foi citado, eu estudo, trabalho e sou membro da diretoria sindical da minha categoria. Às vezes, divido as tarefas com meu marido; outras vezes, ele precisa de um tempo para si…

Meu marido está sofrendo de depressão e ansiedade. Seu quadro clínico piorou nesse período da pandemia. Tem sido difícil lidar com o adoecimento do meu esposo, pois há dias em que seu problema é imperceptível, mas há dias em que até o banho torna-se um dilema, um sacrifício. Ele toma dois comprimidos ao acordar e um para dormir. Vejo que ele se esforça para superar, mas nem sempre consegue.

Eu trabalho à noite, e durante o dia tenho que dar conta de várias tarefas domésticas. Por vezes, não tenho tempo nem para dormir, quiçá para estudar! O sono pesa. Sinto que meu corpo está exausto…

Como mencionei, sou sindicalista e a minha categoria está colapsando. Há anos estamos sem reajuste salarial. Estávamos em uma negociação de valorização profissional e salarial, quando a pandemia se instalou em nosso Estado. A mídia anuncia(va) uns episódios de desvio de verbas públicas e gastos superfaturados, o que leva o nosso efetivo a grandes revoltas e cobranças de reação de nossa parte como diretoria sindical. Em geral, a categoria esbraveja que “o Governo tem dinheiro para tudo, menos para regularizar o nosso salário”. Cada polêmica que surge é uma onda de cobrança sobre o sindicato. Já houve casos de suicídios de profissionais da nossa categoria e alguns colegas afirmam ter sido pela desvalorização profissional e salarial. Nosso contexto de trabalho é intenso e complexo e eu não só acredito, mas também estudo, que o fenômeno do suicídio pode ser resultante de um somatório de fatores; logo, a nossa questão salarial não seria o único causador desse fenômeno entre os profissionais da minha área, como alguns insistem em dizer.

Voltando ao seio familiar… Minha mãe foi contaminada pelo novo coronavírus. A Covid-19 causou uma inflamação em seu coração, causando-lhe um pré-infarto, durante o costumeiro cochilo em uma tarde. Foi necessário levá-la às pressas ao Hospital do Coração. Com esse episódio, passou a apresentar diversos sintomas de pânico. Desse modo, não quer dormir nem comer, está com um quadro de vertigem acentuado, medo de morrer… A única rede de apoio dela sou eu, minha irmã e meu cunhado. Nesse contexto, meu pai passou a reclamar demasiadamente quanto aos gastos com médicos, remédios e terapias que foram indicadas para minha mãe. Isso gerou um conflito entre meu pai e meu irmão mais novo, que coabita com eles, que passou a discutir com nosso pai, (des)considerando o quadro clínico dela. Preciso dizer que essas confusões diárias pioram o quadro de minha mãe? Não, né?… Ela se sente mal pelo fato de ter saído do papel de cuidadora e estar recebendo cuidados nesse momento de fragilidade e chora facilmente.

Minha filha mais nova está dentro do espectro autista. Ela recebe acompanhamento multidisciplinar pelo SUS e pelo plano de saúde. O encarregado de levá-la às terapias (e a estimula nas habilidades sociais) é meu esposo. Entretanto, em virtude de seu quadro depressivo, há dias em que ela perde as sessões de terapias e não tenho como cobrar algo dele, já que está se esforçando ao máximo para ficar de pé. Minha filha mais velha não tem se adaptado bem às aulas remotas. Para falar a verdade, nem eu!

Enfim, antes da quarentena, já estávamos vivenciando alguns contratempos. Às vezes, tenho a sensação de estar insustentável. Essa é a palavra: in-sus-ten-tá-vel! Há dias em que penso que não irei conseguir suportar. Seria hipocrisia ou ironia de minha parte, ser estudante de Psicologia com tantos transtornos em minha volta?

Não sei como vou fazer para que todos nós possamos assistir aulas remotamente, termos algum rendimento escolar/acadêmico positivo, que eu consiga dar conta de todas as outras demandas, bem como ter um convívio social com alguma saúde mental. Todavia, estou aqui para encarar o desafio das aulas remotas e tentar superar essas dificuldades. Que venham tempos melhores!!!

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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 66: DA DESIGUALDADE QUE FAZ MORRER À REDE DE SOLIDARIEDADE QUE FAZ VIVER https://www.adufc.org.br/2020/10/14/memorias-de-quarentena-66-da-desigualdade-que-faz-morrer-a-rede-de-solidariedade-que-faz-viver/ Thu, 15 Oct 2020 01:00:19 +0000 http://localhost/adufcantigo/?p=15943 Jean Borges (Psicólogo – Projeto Abrace, OPN; Membro da Rede DLIS do Grande Bom Jardim e do Vieses – UFC)

Mês de Março de 2020. Parecia mais um mês que se iniciava como os anteriores. As urgências diárias ditavam o ritmo dos nossos corpos. O ano de 2020 trazia expectativas pessoais e profissionais. Um novo emprego como Psicólogo, a qualificação de mestrado que se avizinhava. Enfim, havíamos superado o ano de 2019 e estávamos de pé, apesar das feridas de um ano complicado e de tantas perdas. Muitos desafios nos esperavam. Diminuir o número de juventudes negras assassinadas, sobretudo em nossas periferias urbanas poderia ser um objetivo. Permanecer nas lutas por políticas públicas no território do Grande Bom Jardim não abriríamos mão. Nosso compromisso é com a possibilidade de construirmos vidas vivíveis, estancar a sangria para quem sabe, cicatrizar.

Uma notícia chegou de repente e nos pegou desprevenidos(as). Dessa feita, estávamos diante do desconhecido, do invisível, do aparentemente inominável. Imóveis diante de um vírus? A saída, segundo autoridades de saúde, era o isolamento social? Como assim? Não é possível. Quarentena? Estado de emergência mundial? Estado de sítio? Não sabemos se é para tanto ainda, respondia a imprensa. E nosso planejamento pessoal em relação ao ano que se enuncia há tão pouco tempo? Nossos objetivos e anseios como ficarão? A situação de aulas? Alguém pode informar? E nossos trabalhos? Nossas relações interpessoais? Nada de visita aos familiares e amigos por tempo indeterminado? Tempo, o que seria de nós? Sempre há o que questionar diante de situações adversas. Como nos isolaremos diante do que nem sabemos do que se trata? Exigimos resposta urgente! De quem?

Nesse momento, a Ciência não explicava ou dimensionava com profundidade os possíveis estragos decorrentes desse fenômeno. Algumas pessoas (e me incluo) buscavam explicações em Deus, nos santos, orixás, nos caboclos, guias espirituais, na natureza, ou em todos(as) ao mesmo tempo, nos agarrando em qualquer bote salva vidas ou ao menos numa pequena boia, nesse imenso mar de incertezas. Estávamos naufragando sem a possibilidade de salvação? Fazíamos orações ou rezas para todos(as) eles(as). Alguém haveria de nos responder nesse momento lancinante. Pedia também que não nos faltassem humanidade, amor, empatia e forças para as batalhas vindouras.

As primeiras respostas aceitas para acalmar minhas angústias diante do nada, surgiram a partir dos boletins epidemiológicos das Secretarias de Saúde do Estado e de Fortaleza. A pandemia se agudizava nas periferias: nelas se revelavam os efeitos mais cruéis da nossa desigualdade, renitentemente escondidos e negados pelas elites, mais uma vez estampada e evidenciada pelas vulnerabilidades e rastros mortes, herança de um sistema colonial, reveladas pela crise epidêmica.

O caos esgarçava diariamente, a chaga se abria, sangrava novamente. Pessoas morriam a cada dia, desconhecidos, colegas, amigos, parentes. A morte se aproximava diante das incertezas. Nos afetávamos e nos questionávamos, como sociedade civil, desde as primeiras notícias: o que será de nosso povo? O que será de nossas crianças? Como garantir que as pessoas se isolem socialmente nas suas residências para evitar transmissão do vírus, se em muitas casas há sete, oito pessoas em apenas um cômodo, e boa parte dos(as) moradores(as) são vendedores(as) autônomos(as), feirantes, ambulantes ou trabalham em casas de família?

O pico de disseminação da COVID-19 na capital cearense ocorreu no mês de maio, quando o GBJ já registrava 224 casos e 29 mortes. A violência contra crianças, adolescentes (150% segundo o Comitê Cearense pela Prevenção de Homicídios na Adolescência) e mulheres teve aumento exponencial. No mesmo mês, (dia 08), a Rede de Desenvolvimento Local, Integrado e Sustentável do Grande Bom Jardim (Rede DLIS – GBJ) e outros atores sociais criaram o Comitê Popular de Crise da COVID-19, tornando pública uma carta aberta com 40 subscrições, exigindo dos gestores a implantação de inteligência sanitária e medidas de isolamento mais rígidas nas periferias, em especial, no território do GBJ. O Brasil registrava mais de 100 mil casos de COVID-19 (testagem: 3%). Pesquisas relatavam número dez vezes maior. A média de mortes no Ceará, (3° Estado com mais mortes), em 21 de maio, ultrapassou 261 vítimas (Diário do Nordeste). Em meio a esse caos generalizado, lideranças do GBJ apontam a dificuldade de realização dos protocolos de distanciamento social e de higienização pessoal/familiar, dadas as precariedades habitacionais, vulnerabilidades sanitárias, pobreza extrema, informalidade, baixo acesso às políticas de saúde por alguns segmentos. Containers refrigerados enfileiravam corpos ao lado das UPAS e em outros equipamentos de saúde. Os cemitérios mostravam-se insuficiente para comportar tantos corpos amontoados em sacos plásticos pretos. Familiares e amigos eram impedidos (normas de segurança) de se despedir pessoalmente de seus entes queridos.

Movimentos e lideranças comunitárias reivindicavam: “Queremos tendas para atender os vivos, e não um contêiner para contar os mortos”. No sistema carcerário, os casos de COVID-19 eram subnotificados. Enquanto isso, os corpos se enfileiravam em containers refrigerados. As famílias eram proibidas de visitar e ter notícias dessas pessoas. Para essas vidas, tidas por abjetas, não havia quarentena. Jornais noticiavam: “Apavorados, presos enviam cartas de amor e despedida aos seus familiares” (Fonte: UOL). A população em situação de rua também padecia sem auxílio significativo do poder público. Ações dirigidas a esse segmento por membros da sociedade civil (“Banho com Dignidade”; distribuição de alimentos), trouxeram alento, segundo depoimentos de beneficiados(as). No transporte coletivo, passageiros reivindicavam contra a redução da frota e as aglomerações.

Pessoas continuavam morrendo em suas casas ou nas ruas, sem possibilidade de atendimento nas UPAS e Hospitais apinhados, intensificando nossa dor e angústia diante da impotência. Fome, violações e violências já existiam antes da pandemia como estruturas enrijecidas que esgarçavam o tecido social. A pandemia desvelou essa calamidade. Enquanto isso, grande parcela da população empobrecida voltava ao trabalho, com a justificativa irresponsável do Governo de reabertura “responsável”. Diante dessa constatação, o que fazemos de diferente? Ficarmos parados nunca foi nosso forte, portanto, vamos lutar!

Mesmo diante dessa conjuntura fragmentada, a Rede de solidariedade que nos une nas lutas em prol da vida engendrou muitas campanhas lideradas por movimentos, coletivos, entidades e instituições que já lutavam no GBJ, por exemplo: Campanha Adote uma Comunidade (Rede DLIS aliançada a 18 associações comunitárias e coletivos); Bom Jardim em Luta; Associação dos Moradores do Bom Jardim; Centro de Cidadania e Valorização Humana; Povos de Terreiro e Espaço Geração Cidadã de Arte e Cultura. Mais de 50.000 famílias (incluindo feirantes, ambulantes, catadores(as) e profissionais de saúde do território), foram beneficiadas direta ou indiretamente, com recebimento de cestas básicas, refeições prontas, EPIs, kits de limpeza, kits com materiais lúdicos para crianças, pias comunitárias, campanhas informativas de conscientização (bicicletas e carros de som, faixas, cartazes e lambes e sensibilização porta a porta nas comunidades).

Enquanto a periferia morre e luta mais uma vez, o que o Poder Público faz?

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