“Nós, povos indígenas, sempre estivemos aqui! Resistimos à invasão de nossos territórios e ao genocídio realizado contra os nossos ancestrais e contra nós nesses 525 anos. […] A resposta somos nós! Somos guardiões não apenas da natureza, mas também da Constituição de 1988.”, afirmaram diversas articulações de povos indígenas em carta no 21º Acampamento Terra Livre (ATL), no ano de 2025, em Brasília (DF). O ATL nasceu como uma resposta a uma política indigenista que simbolizava o não avanço na demarcação de terras por parte do governo federal. Hoje, em 2026, os territórios e as vidas indígenas seguem ameaçados por projetos de morte que tentam “apagar” as tradições e se somam à emergência climática de um planeta em colapso. No entanto, os povos indígenas não retrocedem, pois sabem de sua importância e seu papel central na agenda climática do mundo.
Os povos indígenas estão entre os que mais contribuem para enfrentar a emergência climática, não apenas porque vivem em territórios biodiversos, mas também porque detêm conhecimentos, ciências, saberes, práticas e cosmovisões que apontam caminhos e respostas de resistência ao modelo predatório dominante. Povos indígenas partilham com toda a sociedade práticas de conservação e visões de mundo que colocam a vida no centro. Por isso, ignorar esse protagonismo é enfraquecer a própria capacidade global de enfrentar a crise climática.
Os territórios indígenas concentram grande parte das áreas mais preservadas do Brasil e do mundo. Onde há presença indígena, o desmatamento é menor, e a floresta permanece em pé, garantindo regulação climática, estoque de carbono e proteção da água. Essas informações são apontadas por um estudo do Instituto Socioambiental (ISA), de 2022, que afirma, em sua síntese, que “as florestas precisam das pessoas, assim como as pessoas precisam das florestas”, o que destaca o papel fundamental de povos indígenas e comunidades tradicionais na preservação das florestas brasileiras. Nos últimos 35 anos, somente as Terras Indígenas foram responsáveis por proteger 20% do total de florestas do país. O mesmo estudo revela que as Terras Indígenas e as reservas extrativistas apresentaram melhor desempenho na conservação florestal do que Unidades de Conservação de proteção integral ou Áreas de Proteção Ambiental (APAs). Isso confirma que os territórios de ocupação tradicional funcionam como barreiras contra o desmatamento e têm sido essenciais para enfrentar a emergência climática. Atualmente, 40,5% das florestas brasileiras estão sob algum tipo de proteção, mas as áreas com presença de povos indígenas e comunidades tradicionais (Terras Indígenas, territórios quilombolas, reservas extrativistas e de desenvolvimento sustentável) respondem por cerca de um terço desse total, o equivalente a 30,5% das florestas do país.
Os povos indígenas praticam há séculos formas de agricultura que respeitam os ciclos da natureza, como as agroflorestas, que vêm de práticas ancestrais de manejo da terra e combinam o cultivo agrícola para produção de alimentos com a preservação de espécies nativas, em harmonia com a natureza. Esses conhecimentos preservam a fertilidade do solo, a diversidade genética, a resiliência dos ecossistemas e a sobrevivência dos animais, porque a visão indígena considera água, terra e floresta como bens coletivos, e não mercadorias. Experiências de manejo sustentável da água e de uso comunitário dos sistemas naturais inspiram alternativas para políticas públicas de adaptação climática. Para os povos indígenas, seres humanos, natureza e espiritualidade estão interligados, rompendo com a lógica de exploração infinita dos recursos naturais e exercendo uma relação baseada em reciprocidade e cuidado, entre pessoas e natureza, essencial para repensar os modelos de desenvolvimento.
Diante desse aporte de conhecimento, movimentos indígenas no Brasil e no mundo têm pautado fortemente a justiça climática, denunciando violações e exigindo consulta livre, prévia e informada. Suas mobilizações fortalecem a construção de políticas públicas mais inclusivas e sustentáveis. No entanto, uma das lutas para fortalecimento dos povos indígenas ainda é a demarcação de suas terras. A população indígena do Brasil, segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), é de cerca de 1,7 milhão de pessoas, o que representa 0,83% da população do país. Houve um crescimento de quase 90% em comparação com o Censo de 2010, explicado por avanços metodológicos do censo e a maior busca por identificar e encontrar indígenas em áreas mais remotas, urbanas ou rurais.
Ainda segundo o IBGE, no estado do Ceará, a população indígena é de 56.353 pessoas, com 140 etnias identificadas e 51 línguas originárias faladas ou utilizadas. Em agosto de 2025, uma importante conquista foi a homologação de mais três Terras Indígenas no Ceará: a de Lagoa Encantada, do povo Jenipapo-Kanindé, a de Tremembé de Queimadas e a Terra Indígena Pitaguary. Com esse ato, somadas às já homologadas Terra Indígena Córrego João Pereira e Terra Indígena Barra do Mundaú, subiu para cinco o total desses territórios homologados desde o ano de 2023 no estado.
Entre desafios e conquistas, os povos indígenas do país não fogem à luta e seguem oferecendo soluções: “As crises climática, ambiental, alimentar e civilizatória têm em nossos modos de vida, saberes e práticas tradicionais o caminho para a regeneração do planeta”, reafirmaram na carta no 21º Acampamento Terra Livre (ATL), em 2025.


