A luta pela permanência em seus territórios, para manter as florestas em pé, é protagonizada por mulheres ao redor do mundo. Elas são reconhecidas como guardiãs da vida e da sociobiodiversidade porque, no cotidiano, colocam em prática ações de preservação e defesa de territórios. Seus saberes ancestrais passados ao longo de gerações, guardam, protegem e preservam o ambiente. São conhecimentos sobre plantas medicinais, manejo das águas, preservação das sementes crioulas, modos de cultivo sustentável e agroecologia na prática, ao redor de seus quintais.
A garantia e o cuidado do alimento que vai à mesa, a organização política territorial, o trabalho de cuidado para a manutenção de famílias saudáveis – que permite a vida política de quem as compõe – são elementos para a luta de povos de diferentes regiões do mundo e são também, em geral, frutos do trabalho de mulheres. Ao cuidar da alimentação, da saúde e do compartilhamento de valores coletivos, as mulheres resistem ao modelo capitalista que degrada a natureza e explora as pessoas. Por isso, feminismo, agroecologia e justiça ambiental caminham juntos. Desse modo, mulheres não só garantem a preservação de ecossistemas, mas também mantêm vivas culturas, tecnologias, memórias e formas de resistência que garantem futuro tanto para suas comunidades quanto para o planeta.
Em especial, mulheres negras, quilombolas, indígenas, ribeirinhas, que estão nas florestas, em comunidades tradicionais e nas periferias, estão na linha de frente da luta por seus territórios, rurais e urbanos, e são as primeiras a sentir os efeitos do atual contexto de crise climática. O relatório “Justiça climática feminista: um modelo para ação”, de 2023, da Organização das Nações Unidas (ONU), alerta que as mulheres sentem primeiro os efeitos das mudanças climáticas. O documento afirma que até 2050 mais de 158 milhões de mulheres e meninas poderão ser empurradas para a pobreza e mais 236 milhões para a fome.
Segundo o Censo do IBGE de 2022, mais de 1,3 milhão de pessoas quilombolas vivem em quase 1.700 municípios brasileiros. Essa presença evidencia a força dessas comunidades na defesa de territórios e na preservação cultural, em diálogo com as práticas sustentáveis de mulheres negras e indígenas. Práticas agroecológicas urbanas, agricultura de quintais e o uso de plantas medicinais, desenvolvidos por mulheres, afirmam o pertencimento comunitário e o respeito à natureza, transmitidos também por pajés e lideranças espirituais.
Valorizar as mulheres guardiãs significa contribuir para a proteção da biodiversidade e a promoção da segurança alimentar, dos saberes comunitários, da igualdade social e da própria capacidade humana de enfrentar a crise climática. Isso é necessário porque as mulheres ainda são responsabilizadas pelos trabalhos de cuidados e pela alimentação de famílias e comunidades. Sem políticas de reconhecimento, o trabalho de garantir alimentos saudáveis, acessíveis e diversificados se enfraquece e aumenta a dependência de alimentos ultraprocessados, o que pode, por exemplo, agravar doenças relacionadas à má alimentação, como obesidade, diabetes e hipertensão, mais uma vez atingindo, sobretudo, as mulheres.
A “Carta pela vida e pelos corpos-territórios”, lançada na I Conferência Nacional das Mulheres Indígenas em agosto de 2023, em Brasília (DF), reúne 49 propostas organizadas em eixos como Direito e Gestão Territorial, Emergência Climática, Políticas Públicas e Violência de Gênero, Saúde, Educação e Saberes Ancestrais, reafirmando a declaração das mulheres: “Nosso corpo é território! Somos as guardiãs do planeta pela cura da terra!”. A carta servirá de base para a Política Nacional para Mulheres Indígenas.
Na perspectiva de valorização do conhecimento das guardiãs da vida e de enfrentamento aos efeitos da crise climática, reconhecer o protagonismo das mulheres é combater as estruturas de racismo, machismo e desigualdades que já as sobrecarregam; é também enfrentar a exclusão política, econômica e cultural que limita a participação delas em decisões sobre terra, recursos naturais e políticas públicas. As práticas agroecológicas lideradas por mulheres são fundamentais para mitigar e se adaptar às mudanças climáticas. Sem a valorização desse trabalho, a sociedade perde estratégias locais e coletivas que ajudam a regenerar ecossistemas, reduzir emissões e construir resiliência.
Mulheres e alimentação no capitalismo
O sistema capitalista transforma a dinâmica de vida das mulheres, como nas diversas jornadas divididas entre o trabalho produtivo e o reprodutivo, transformando a sobrecarga de uma estrutura social desigual, baseada no patriarcado, em oportunidade de lucro. Assim, as mulheres têm a saúde diretamente afetada pelo consumo de alimentos ultraprocessados, que aparecem como solução para aliviar o peso das diversas tarefas diárias, mas que cobram o preço da saúde e da autonomia alimentar. A propaganda naturaliza esse consumo como moderno e inevitável, enquanto a desigualdade de gênero mantém, sobre as mulheres, a responsabilidade pelo cuidado e pela alimentação da família.


