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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 73: DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA

Margarida Maria Pimentel de Souza (Professora do Departamento de Letras Libras e Estudos Surdos – Delles/CH/UFC)

“Dia da Consciência Negra é bom porque é dia especial de luta” – disse alguém.

Indago: Dia especial de luta?

A luta de negras e negros é diária! Luta-se por respeito, por lugar, por vez, por voz, por dignidade, por VIDA. Independentemente de diplomas, a cor da pele parece ser um convite à população pseudobranca a destratar em maior ou menor grau uma pessoa negra. Aliás, o diploma desta, certamente, se deu/dá à custa de mais e mais lutas, pois privilégio destina-se à pessoa dita branca.

Se um homem negro desce de um carrão, logo o imaginário toma conta: “deve ser jogador de futebol”; “talvez seja o manobrista”. E se ele está próximo a um carrão? Não duvide, alguém poderá chamar a polícia. E se for algum policial que veja, raramente se evitará alguma cena repugnante.
Brasil, pobre país colonizado! Precisaria de um “dia especial” no calendário se não fosse, lamentavelmente, tão racista? Dia para refletir? Dia de propagar a cultura negra? Será “Especial”, quando, nesse dia, empregarem mais negros; promoverem a bons cargos e salários; não houver o invisível (mas, vivenciado) apartheid; quando houver equidade e respeito de fato!

Vive-se uma cultura de apagamento da negritude, em tentativas de “embranquecimento”, quando:
(a) uma mulher negra, independente de poder aquisitivo, entra em um salão de “beleza” e se insiste na tortura de alisamento porque “cabelo liso é cabelo bom”;
(b) se acha que chamar uma mulher de “mulata” é menos ruim do que reconhecer o seu valor por ser “negra”;
(c) quando nessa mesma perspectiva se diz “aquela moreninha” / “aquele moreninho”;
(d) quando negr@s escolhem ou tratam melhor uma pessoa (dita) branca, menosprezando, mesmo inconscientemente, seus pares negros; e assim por diante. Enumeraria por horas, as atitudes provenientes do racismo estrutural do/no Brasil.

No linguajar cotidiano, várias são as expressões racistas proferidas: “inveja branca”; “magia negra”; “ovelha negra”; “mercado negro”; “lista negra”; “a coisa tá preta”; “denegrir”; “deu de pau num prato de comida”; “doméstica”; “cor do pecado”; “meia tigela”; “esclarecer”; entre outras. Teme-se o “gato preto” e evita-se a “galinha preta”.

Não fosse o Brasil um país estruturalmente racista, não precisaria do “Dia da Consciência Negra”; assim como não seria tão comum a violência e o assassinato de negros, executados, inclusive, por funcionários públicos (policiais), simplesmente pelas suspeitas, por vezes, equivocadas, em virtude da abundância de melanina na pele das vítimas.

Para coroar esse dia especial, nesse 2020, pleno de desafios, medos e tristezas em virtude da pandemia do coronavírus, o noticiário divulga o assassinato de um negro, espancado por seguranças da loja Carrefour até a morte, à vista de pessoas “expectadoras”, que apenas filmaram com o celular. Talvez usar o celular para ligar à polícia não surtisse efeito. Infelizmente, diferente do movimento social estadunidense, a mídia já anunciou que a vítima socou um dos seguranças, antes de tudo começar; isto é, no Brasil, a vítima termina sendo a “culpada”.

Enfim, trago a pergunta ainda sem resposta e sem a punição dos culpados: quem encomendou a morte de Marielle Franco? Estaria impune se essa mulher, jovem, negra, livre, mãe, letrada, cidadã, politizada, exemplo de Ser… fosse “branca”? Seu(s) mandante(s) estaria(m) livre(s) se fosse(m) “negro(s)”?

“Consciência Negra” torna-se um atributo. É fortaleza. É “com-Ciência”, como evoca o legado do grande mestre Milton Santos.

Negro produz Ciência. Dê-lhe oportunidade. Dá-nos espaço digno!

Como mulher, negra, professora universitária, originária da classe trabalhadora, cuja trajetória de luta cotidiana recusou e recusa a negatividade da “destinação” de “Gabriela” – “Eu nasci assim, eu cresci assim, sou mesmo assim, vou ser sempre assim” –, uso o meu lugar de fala e potência para dizer que a “ESPERANÇA” de dias melhores não cabe em meu dicionário, porque o dia ideal é o HOJE; porque, há séculos, se ESPERA por dignidade, fraternidade, equidade, liberdade; e porque o sangue fervilha no AGORA.

Urge A-COR-DAR, Brasil! Urge dar-a-cor!
Avante, Brasil negro, Brasil indígena!
Brasil multicolorido e multilíngue, Avante!

Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará

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