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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 48: UMA FAMÍLIA EM CASA COM UM IMPERATIVO: ESPERANÇAR

Luciana Quixadá (Professora da UECE e integrante do Movimento Cada Vida Importa).

Março sempre foi um mês feliz na minha casa porque celebramos minha vida e também a vida do meu esposo. Neste ano, tivemos celebrações diferentes e distantes de muita gente querida. Embora com essa perda, festejamos entre nós. Achamos importante celebrar nossas vidas que seguiam protegidas, apesar de tudo. Dizem que a felicidade é resultado da gratidão e estávamos gratos pela oportunidade que tínhamos de um teto, dois filhos para amar e uma despensa cheia. Ainda assim, havia medo e tristeza. Certa noite, eu estava tão triste, mas tão triste que não conseguia respirar. Parecia estar sufocada, as lágrimas escorriam e meu marido, que é um grande companheiro, na sua discrição costumeira colocou para tocar Martinho da Vila. De repente, ouvi “Canta, canta, minha gente, deixa a tristeza pra lá. Canta forte, canta alto que a vida vai melhorar.” Desde que perdi um filho bebê, sobrevivi estando muito atenta aos sinais que a vida me traz e me agarrei com força nessa mensagem-poesia. De lá pra cá, o medo nos afetou constantemente, foram muitas noites mal dormidas, ansiedade a todo vapor. Se uma acordava e o outro percebia, ia lá cuidar com amor e vice-versa. Ao mesmo tempo, a gente se admirava que as crianças seguiam dormindo a noite toda e acordavam tranquilas, com uma rotina que tentamos garantir. Tudo em nossa casa seguiria, ao máximo possível, como antes: mesmos horários de alimentação e de ir para a cama à noite, do uso de TV e tablet, estudo, brincadeiras… Claro que as mudanças vieram para nós e nossos filhos, que passaram a assistir às aulas do colégio pelo computador, e a ter pai e mãe trabalhando todo o tempo em casa. A ida ao supermercado era um martírio para meu marido e a limpeza das compras era (e ainda é) um martírio para mim. Quando vão inventar uma máquina para isso? Enquanto eu descobria novas aptidões na cozinha, as crianças amavam a “comidinha da mamãe”. Tive uma adaptação necessária às redes sociais virtuais, pois foram grandes aliadas para manter meus encontros com primas, tias, amigos, alunos e, em especial, para meus encontros diários à distância com minha mãe e irmã. Surpreendente demais essa vivência afetiva e profissional com uma dimensão virtual impensável em outros tempos! As crianças também tiveram que se adaptar a isso rapidamente. Meu filho de 4 anos tinha mais dificuldade e dizia: “eu gosto é de falar ‘cala a cala’, mãe!”

Voltei, portanto, a fazer Educação Infantil, acompanhando-o, tanto em suas aulas à distância, como em suas tarefas, e descobri que era mais difícil do que concluir um doutorado. A decisão pela continuação de participação nessas aulas foi para que ele não se afastasse completamente da situação escolar e tivesse encontros frequentes com a professora (muito afetuosa!) e os amigos de sala, mas respeitando o ritmo dele. Essas aulas do meu filho, entretanto, me traziam tanto esgotamento que aquelas que eu ministrava pela Universidade foram muito mais tranquilas para mim, mesmo com todo o desgaste de fazê-las pelo aplicativo Meet. À tardinha, eu passava pelo quarto da minha filha e via sua disciplina de bailarina com a sapatilha no pé, treinando sob o comando da professora de balé, que fazia uma live para as alunas. Ela decidiu continuar com o balé, porque o via como uma válvula de escape, ao contrário das aulas do colégio, as quais foram sofridas, pois ela queria mesmo era abraçar as amigas e passar o recreio com elas.

Acho que conseguimos manter um cuidado com nossos filhos, dando alguma segurança com essa rotina, graças à qual, quando as saudades e as preocupações com o vírus chegavam, eles buscavam e criavam recursos organizadores desses sentimentos e pensamentos. Improvisamos uma piscina no quintal e fizemos muitos bolos. Tentávamos criar uma rotina diferente nos fins de semana, fazendo sessões de cinema na sala e pedindo pizza ou hambúrguer, sempre requentados no forno. Em junho, fizemos nosso São João “dendicasa” com bandeirinhas, música, comidas e brincadeiras juninas. Isso nos trouxe muita alegria, em especial, para as crianças. Assim, fomos inventando dia a dia novos modos para sorrir.

Falando por mim, penso que minha maior luta nesse período foi cuidar da minha família em um confinamento que jamais imaginei; da minha mãe, que passou três meses absolutamente isolada, mas bem assistida; e das minhas grandes parceiras do dia a dia doméstico, com as quais eu falava com frequência para saber como estavam, mas que ficaram em suas casas recebendo seus salários. Outras lutas surgiram, especialmente, as políticas dentro das redes sociais contra um governo que não priorizou e não prioriza a vida das pessoas, e mais ainda, daquelas que nunca tiveram oportunidades para uma existência segura. São lutas, porque o esforço é enorme, sabendo da impossibilidade de controlar tudo, todos os fatores em jogo; da impossibilidade de controlar quem saía de casa e não usava máscara. Desse modo, eu que conseguisse, ao menos, fazer minha parte e cuidasse do meu jardim. De tudo, penso que enxergar o abandono que se seguia para muitas pessoas foi muito difícil nesse isolamento, embora acompanhasse e participasse de algumas iniciativas coletivas de cuidado.

Desejo que possamos descobrir, com essa experiência, o que mais importa para cada um e cada uma, reconhecendo, sempre mais, que nossa existência é dependente de algo muito maior do que nós mesmos e que não podemos sozinhos controlar e dar conta de tudo. Para mim, esse reconhecimento tem sido libertador, pois me levou a poucas ambições pessoais, o que diminuiu bastante minha ansiedade e me aproximou do que considero ser mais importante. Foquei minha energia nisso. Ainda mais porque minha noção de tempo foi posta em xeque e, se antes eu fazia muito em pouco tempo, fui forçada a ter muito tempo para fazer, relativamente, menos. Então, que esse menos valesse a pena e fosse essencial, porque ele seria saboreado lentamente. Por fim, venho tentando confiar que o amanhã vai chegar mais bonito para não me desesperar com o presente. Tenho poucas certezas, mas uma delas é que, enquanto a gente pulsa e o mundo gira, tudo passa. Se pulsamos juntos, então, esperançar é uma beleza!

Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará

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