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MEMÓRIAS DE QUARENTENA 30: O PROFESSOR DE LATA NA DESCONHECIDA ESTRADA DA QUARENTENA

José Maclecio de Sousa (Professor da Rede Municipal de Ensino de Fortaleza)

Vamos para mais de dez semanas nesta estrada sem tijolos amarelos da Quarentena do Covid-19. Antes disso, a despeito das sabedorias ancestrais e populares e de projeções científicas, algumas distopias socioambientais já destoavam do movimento maior que é a vida. Forjadas pela modernidade e suas artimanhas necrocapitalistas, aprofundaram a cinzenta narrativa do acúmulo e da exploração social e da natureza como objetos.

Desse prelúdio, o Corona Vírus se fez um ciclone intenso que provocou grande reboliço nas existências. Fomos convocados à resistir com novos sentidos, pelo desejo mesmo de estarmos vivos com os nossos, nos afetando pela dor do outro, descortinando a diferença abissal de como a Pandemia se manifesta nas esquinas do mundo. Ademais, quando os negacionacionistas assaltam e aprofundam essa realidade, nos cabe toda a sorte de insurgência como resposta a ignorância, a mentira descabida e a perversidade que compõem a política de morte imposta no Brasil.

A caminhada na estrada da Quarentena nos exige novas decifrações deste mundo, paradoxalmente velho e novo. Dependendo do jogo de lentes, como um decreto de fim da história, vamos sobreviver a reprodução contínua da nossa crise civilizacional? Ou este enredo atingirá o seu clímax e com a sorte e magia de um condão, cumpriremos a promessa dos desejos realizados, finalmente chegando à Cidade das Esmeraldas, refeita na ideia inebriante do novo normal?

Imaginem vocês, logo eu que tanto desejei ter um coração, para pulsar nas escolas as batidas da amorosidade, do diálogo e da esperança da pedagogia de Paulo Freire, tendo que pensar e interagir com as máquinas do ensino remoto, quando estimativas indicam que 58% das residências brasileiras não têm computadores e 33% não têm internet!

No privado das plataformas digitais e mídias sociais que uso, alguns escassos sinais disso, “professor, por favor, me envia as suas atividades, não tive como acessar antes”, “professor, não deu para assistir o vídeo porque a internet do celular do meu pai é restrita e só posso fazer a atividade depois que ele chega do trabalho”.

O sinal mais agudo é o do silêncio, que comunica um apagamento que recai sobre a quase totalidade de cerca de 250 educandos que tenho. Nesta semana, um colega de trabalho transformou isto em um gráfico, do tipo pizza por turma que dá aula, e as fatias de não retorno das atividades dos seus alunos, leia-se, dificuldades muito variadas de acesso às atividades remotas desenvolvidas pela escola, eram enormes.

Em meio aos nossos esforços, algumas opiniões descontextualizadas ressignificam a desculpa precária e antipedagógica da falta de interesse dos alunos pelas aulas, desta vez pelas atividades remotas, como se a medida das realidades adversas que atravessam os nossos alunos se desse a partir das nossas vivências de quarentenados com o wifi, nas condições das nossas casas, dos nossos passeios virtuais de live em live, de sala em sala virtual, deslizando o dedo pela time line do Facebook e do Instagram, produzindo e vasculhando stories.

É mais do que oportuno pensar que 130 mil famílias de Fortaleza encontram-se em moradias com estrutura inadequada, de onde uma parcela significativa dos nossos educandos vivem. Que tipo de acesso e meios de estudos possuem? Será que eles e suas famílias conseguem seguir a quarentena conforme as recomendações da OMS? Como estão vivendo a Pandemia e se sentindo? Façamos uma honesta e boa leitura crítica das realidades e desigualdades existentes, ampliadas pelos impactos da Pandemia!

Com o coração nas mãos, confesso não me surpreender sobre as precariedades que descrevi, não apenas pela continuidade dos problemas sociais no Brasil, que infelizmente regrediram consideravelmente nos anos recentes. No âmbito da gestão da política nacional de educação, convivemos com a postura negacionista da Pandemia, materializada pela gravíssima falta de ação e cooperação com esta problemática no sistema escolar. Em outra medida, nas esferas estaduais e municipais o teor colonizador da prática educativa pela política de avaliação e resultados, fizeram com que gestores e profissionais da educação parecessem inicialmente perdidos na tarefa necessária de repensar os nossos fazeres escolares na Quarentena.

Logo testemunhamos uma demora considerável, marcada pela falta de diálogos e de gestão nacional do sistema escolar. Se considerarmos que as leituras dos impactos da Pandemia na China e em países europeus nos deram uma chance importante de organizar o pensamento e ação sobre a realidade brasileira, nós a perdemos e agora estamos às voltas com o sério problema da exclusão escolar, agravada quando pensamos a condição da população negra do país.

Ainda assim, o nosso andar vacilante e doído pela estrada sem tijolos amarelos da Quarentena, é compreensível, como fora o de Dorothy que não conhecia bem a Terra de Oz. Com as parcerias costuradas, o seu coletivo resolveu dilemas, enfrentou perigos, descortinou grandes farsas, libertou-se e libertou prisioneiros, superou vilanias e assim desvelou e tornou consciente a potência que gera a comunhão de vidas e saberes.

A maioria de nós conhece o final do enredo da menina e de seus amigos, bem como a falácia que é a Cidade das Esmeraldas, o nosso porém, encontra-se inconcluso e aberto. Quem sabe a metáfora do Professor de Lata, com o coração tocado pela Pedagogia do Oprimido e da Esperança, contribua para que o nosso aliançamento com outros seja possível, e nos oportunize pensar, sentir e agir juntos abordagens escolares que, durante e após esta Quarentena, estejam em sintonia com uma política educacional potencializadora de re-existência e de inclusão, em outras palavras, preenchidas de vida.

Sindicato dos Docentes das Universidades Federais do Estado do Ceará

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